Sábado, 03 de Outubro de 2026
23°C 36°C
Plácido de Castro, AC
Publicidade

Agressor, mídia e sociedade: quantas vezes a vítima morre?

A violência doméstica é um fenômeno estrutural que vai muito além dos episódios de agressão e feminicídio noticiados diariamente. Com base em pesqu...

Redação
Por: Redação Fonte: Agência Dino
09/07/2026 às 09h25
Agressor, mídia e sociedade: quantas vezes a vítima morre?
Foto Profissional: Milena Paula Samuel

A cada novo caso de feminicídio ou agressão contra uma mulher, o país parece reviver o mesmo roteiro: choque, indignação e uma rápida sucessão de manchetes que logo cedem espaço à próxima urgência do noticiário. O problema é que, quando a violência doméstica é narrada apenas como um episódio isolado, perde-se a dimensão mais importante da questão: ela é um fenômeno estrutural, sustentado por desigualdades históricas, relações de poder e falhas coletivas de proteção.

Essa constatação não nasce apenas da experiência clínica. Em pesquisa de doutorado em Psicologia, Milena Paula Samuel analisou 3.350 notícias publicadas entre 2015 e 2023 em cinco grandes jornais brasileiros para compreender como a violência contra mulheres, crianças e adolescentes é apresentada ao público. O resultado revelou um padrão preocupante: a cobertura concentra-se majoritariamente no fato consumado, a agressão, a prisão ou a morte, enquanto dedica muito menos espaço à prevenção, à rede de apoio e aos sinais anteriores da violência.

Quando a notícia começa apenas no momento da tragédia, a sociedade é levada a acreditar que aquele caso surgiu de forma repentina. Mas a violência doméstica raramente começa com um crime extremo. Ela costuma ser precedida por controle, humilhações, isolamento, ameaças, dependência emocional ou econômica e sucessivas violações da autonomia da mulher. São sinais que, muitas vezes, permanecem invisíveis porque culturalmente ainda aprendemos a minimizar comportamentos abusivos dentro das relações afetivas.

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência doméstica, representada pela Lei Maria da Penha. Ainda assim, milhares de mulheres continuam encontrando dificuldades para romper o ciclo da violência. Muitas não denunciam por medo, dependência financeira, preocupação com os filhos ou pela esperança de que o parceiro mude. Outras chegam a procurar ajuda, mas encontram respostas fragmentadas entre saúde, assistência social, segurança pública e Justiça.

É nesse ponto que a forma como falamos sobre violência se torna decisiva. A linguagem nunca é neutra. Quando uma reportagem enfatiza "crime passional", "briga de casal" ou "desentendimento amoroso", desloca o foco da responsabilidade do agressor e suaviza a gravidade do que ocorreu. Quando contextualiza o caso como violência de gênero, explica os mecanismos de proteção e informa os canais de ajuda, transforma-se em instrumento de prevenção.

Segundo Milena Paula Samuel, doutora em Psicologia, a prática clínica evidencia com frequência mulheres altamente escolarizadas, profissionais bem-sucedidas e socialmente independentes perguntando a si mesmas por que permaneceram tanto tempo em relações violentas. Essa pergunta revela um equívoco coletivo: ainda imaginamos que a violência doméstica atinge apenas mulheres vulneráveis economicamente ou com pouca instrução. A realidade é muito mais complexa. O abuso pode atravessar qualquer classe social, profissão ou nível de escolaridade, justamente porque opera também por vínculos afetivos, culpa, medo e desgaste emocional progressivo.

"Precisamos abandonar a ideia de que o enfrentamento da violência doméstica é responsabilidade exclusiva da vítima. Trata-se de uma tarefa social. Escolas, empresas, serviços de saúde, vizinhos, familiares e meios de comunicação têm papel fundamental na identificação precoce dos sinais de risco. Quanto mais cedo a violência é reconhecida, maiores são as chances de proteção antes que ela evolua para formas graves ou letais", afirma Milena.

Também é necessário ampliar o debate sobre os impactos da violência na trajetória profissional das mulheres. Muitas vítimas faltam ao trabalho, reduzem sua produtividade, abandonam projetos ou interrompem carreiras devido ao sofrimento psicológico e às consequências práticas do abuso. A violência doméstica não permanece dentro de casa: ela afeta a economia, a saúde pública e o desenvolvimento social do país.

Transformar essa realidade exige mais do que indignação momentânea. Exige informação qualificada, responsabilidade coletiva e uma mudança na maneira como enxergamos os relacionamentos abusivos. Enquanto continuarmos tratando cada caso como uma tragédia privada, seguiremos chegando tarde demais. A pergunta que precisamos fazer não é apenas por que uma mulher não saiu antes, mas por que a sociedade ainda demora tanto para reconhecer os sinais que antecedem a violência.

Sobre Milena Paula Samuel

Milena Paula Samuel é doutora em Psicologia, pesquisadora das narrativas midiáticas sobre violência e autora do livro "Até que a Morte Nos Separe? Metendo a Colher e Promovendo Saúde nos Relacionamentos Conjugais".

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Thaís Abrahão
Sociedade Há 9 horas

4º Fórum Coexistir coloca inclusão no centro do debate

Evento reuniu especialistas para discutir diversidade, segurança psicológica, racismo e desigualdade, destacando a importância de transformar culturas e práticas organizacionais.

Magnific
Sociedade Há 10 horas

EUA x China pode motivar ciberespionagem na América Latina

ESET identificou 90% dos alvos do FamousSparrow na região entre meados de 2025 e 2026; Brasil não aparece na campanha recente, mas já esteve entre os países atingidos pelo grupo.

Imagem gerada por IA (ChatGPT)
Sociedade Há 11 horas

LGPD reforça importância da privacidade desde a concepção

Conceito que já é referência legal na LGPD ganha força em 2026, à medida que a ANPD detalha seu plano de fiscalização e passa a exigir que a proteção de dados esteja presente desde a concepção de qualquer produto ou serviço — e não como um ajuste ...

Imagem do Magnific/wavebreakmedia_micro
Sociedade Há 14 horas

Sangramento na gengiva pede avaliação, alerta dentista

Periodontista explica que sangramento recorrente na escovação ou lesões persistentes na gengiva podem sinalizar gengivite ou periodontite, detalha causas mais comuns do quadro e os riscos de adiar o diagnóstico odontológico

Olia Danilevich/Pexels
Sociedade Há 17 horas

Sair das dívidas: especialista explica o primeiro passo

Levantamento com 2.186 endividados, entre junho e setembro de 2026, mostra que a barreira mais citada não é a falta de dinheiro: 44,6% não sabem por onde começar. Para Nádia Pace, a dívida é consequência; o problema é a ordem em que a pessoa tenta...

Plácido de Castro, AC
25°
Tempo nublado
Mín. 23° Máx. 36°
25° Sensação
0.84 km/h Vento
69% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
07h11 Nascer do sol
19h23 Pôr do sol
Domingo
39° 25°
Segunda
39° 22°
Terça
38° 23°
Quarta
39° 25°
Quinta
42° 25°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 +0,10%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 468,458,51 +0,19%
Ibovespa
192,114,55 pts 2.63%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias