Sexta, 02 de Outubro de 2026
22°C 39°C
Plácido de Castro, AC
Publicidade

O Seringal que Sangrava à Noite

Quando a mata se recusou a esquecer o que os homens enterraram

Paulo Roberto de Araújo Pereira
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira
23/07/2026 às 22h03 Atualizada em 24/07/2026 às 05h37
O Seringal que Sangrava à Noite

  O Seringal que sangrava à Noite

 

Durante muitos anos, ninguém em Plácido de Castro soube explicar por que as seringueiras daquela colocação deixaram de produzir leite.

A terra era boa. O inverno chegava no tempo de sempre, o igarapé não havia secado e os troncos permaneciam firmes, alguns tão largos que dois homens não conseguiriam abraçá-los. Ainda assim, quando a faca riscava a casca, não escorria a seiva branca que alimentara gerações.

Saía apenas uma água escura, grossa e silenciosa.

Os mais velhos diziam que tudo começara numa noite de agosto, quando o verão endurecia os caminhos e o vento espalhava folhas secas pela estrada de seringa.

Naquela época, vivia ali um homem chamado Anselmo. Não se sabia exatamente de onde viera. Uns diziam que nascera nas bandas do Abunã; outros juravam que chegara ainda menino, trazido num batelão. Era homem de poucas palavras. Conhecia cada volta do igarapé, distinguia pelo cheiro a chuva distante e jamais negara farinha, café ou abrigo a quem lhe batesse à porta.

Também não sorria com facilidade.

Talvez por isso fosse respeitado, mas nunca inteiramente querido. Há pessoas cuja reserva incomoda mais do que a maldade dos faladores. Diante delas, ninguém sabe o que está sendo pensado — e há quem prefira inventar.

Numa tarde, quando os últimos seringueiros retornavam das estradas, ouviu-se um grito vindo do barracão.

Foi um som breve.

Alguém correu. Depois vieram outros. Encontraram uma lamparina caída, uma cadeira virada e uma moça tremendo junto à parede. Anselmo não estava ali.

A primeira pessoa disse que ouvira o grito.

A segunda afirmou ter visto um homem desaparecer entre as árvores.

A terceira não vira nem ouvira coisa alguma, mas garantiu que Anselmo passara perto do barracão naquela tarde.

Antes que a noite fechasse, ninguém mais perguntava o que havia acontecido. Perguntavam apenas onde ele estava.

Encontraram-no em sua casa, limpando uma lamparina.

Anselmo não tentou fugir. Caminhou com os homens até a clareira, onde quase toda a colocação já se reunira. A moça não apareceu. Disseram que estava abalada demais para falar.

— Você esteve no barracão? — perguntou o administrador.

— Não.

— Então por que viram você naquela direção?

Anselmo olhou para os rostos ao redor. Alguns sustentaram seu olhar. Outros baixaram a cabeça.

— Quem me viu?

Ninguém respondeu.

Uma mulher murmurou que não havia fumaça sem fogo. Um velho afirmou que homem inocente devia explicar-se melhor. Alguém, atrás da multidão, recordou que Anselmo sempre fora estranho. Outro disse que, pensando bem, nunca confiara naquele silêncio.

A cada frase, a história ganhava uma nova certeza.

Anselmo compreendeu que não estava ali para ser ouvido. As perguntas já carregavam as respostas, e as respostas tinham sido escolhidas antes de sua chegada.

— Diga alguma coisa em sua defesa — exigiu o administrador.

Ele ergueu os olhos para as copas das árvores.

O vento havia parado. Não se ouvia pássaro, inseto ou folha. Até o igarapé parecia correr mais devagar.

— A mata estava acordada — disse Anselmo.

Foram as únicas palavras.

Mandaram que deixasse a colocação antes do amanhecer. Ninguém o acompanhou. Viram apenas a luz de sua poronga diminuindo entre os troncos, até confundir-se com os vaga-lumes e desaparecer depois da curva.

Na manhã seguinte, os homens saíram para o corte.

A primeira seringueira devolveu uma seiva escura.

Na segunda, aconteceu o mesmo.

Em pouco tempo, gritos atravessaram as estradas. Nenhuma árvore produzia leite. Dos cortes recentes escorria um líquido espesso, quase vermelho, que manchava as tigelas e tinha cheiro de ferro.

A borracha deixou de coalhar. A água do igarapé adquiriu gosto de ferrugem. Durante a noite, ouviam-se golpes de lâmina no interior da mata: lentos, regulares, de árvore em árvore.

Ninguém tinha coragem de verificar.

Depois começaram as vozes.

Elas surgiam quando as casas apagavam as lamparinas. Vinham dos troncos, das palhas do telhado e do fundo dos potes de água.

— Eu não vi, mas ouvi dizer.

— Se fugiu, é porque devia alguma coisa.

— Se todos acreditam, deve ser verdade.

Cada morador reconhecia a própria voz.

Algumas famílias partiram. Outras permaneceram, esperando que o tempo enterrasse o acontecimento. A colocação definhou. O barracão foi abandonado, as estradas desapareceram sob o mato e o nome de Anselmo deixou de ser pronunciado.

Muitos anos depois, um menino entrou numa sapopema à procura de um jabuti e encontrou uma velha bolsa de couro. Dentro havia uma pequena imagem de santo, um canivete enferrujado e um caderno de anotações.

Na última página, estava registrada a data daquela noite.

Anselmo escrevera que passara o dia inteiro do outro lado do igarapé, socorrendo um homem ferido durante a queda de uma árvore. Abaixo do relato havia quatro assinaturas.

O menino levou o caderno para casa.

Ao reconhecerem os nomes, os mais velhos empalideceram. As quatro testemunhas haviam morrido havia muito tempo, mas todos sabiam que aqueles homens trabalhavam longe do barracão. A verdade sempre existira. Apenas não chegara a ser procurada.

Naquela mesma noite, decidiram enterrar o caderno.

Foram até a clareira sem levar as crianças. Escolheram o ponto exato onde Anselmo permanecera durante a acusação e começaram a cavar.

A primeira pá encontrou uma fivela.

A segunda revelou um pequeno cachimbo.

Depois surgiram um pente quebrado, uma medalha, dois brincos, um terço sem cruz e vários botões de roupas antigas.

Eram objetos pertencentes a outras pessoas que, ao longo dos anos, haviam sido expulsas, humilhadas ou condenadas pela palavra de quem nada vira.

Anselmo não fora o primeiro.

Fora apenas o primeiro que a mata se recusara a esquecer.

Os homens devolveram os objetos à cova, jogaram o caderno por cima e cobriram tudo. Antes de sair, pisaram a terra até não restar sinal da escavação.

Naquela madrugada, pela primeira vez em muitos anos, não se ouviram golpes de faca nas seringueiras.

As vozes também se calaram.

Os moradores imaginaram que a floresta finalmente os havia perdoado.

Quando o dia nasceu, encontraram palavras gravadas nos troncos de todas as árvores. Eram os nomes daqueles que haviam partido sem ser ouvidos.

Na última seringueira da estrada, porém, não havia nome algum.

Havia somente um espaço vazio, recém-aberto na casca.

E, de dentro dele, começava a escorrer leite branco.

 

Quando a verdade chega tarde demais, ela pode provar a inocência, mas já não consegue devolver ao inocente a vida que lhe foi retirada.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Gente de Direito
Gente de Direito
Gente de Direito é uma coluna dedicada a dar voz às histórias de pessoas simples, cujas trajetórias refletem coragem, dignidade e luta por justiça. Aqui, os direitos ganham rosto e nome, com relatos inspiradores e conteúdos acessíveis sobre cidadania, leis e conquistas sociais. Um espaço onde a vida real e o direito caminham lado a lado.
Ver notícias
Plácido de Castro, AC
27°
Chuvas esparsas
Mín. 22° Máx. 39°
28° Sensação
0.42 km/h Vento
62% Umidade
22% (0.15mm) Chance chuva
07h11 Nascer do sol
19h24 Pôr do sol
Sábado
39° 25°
Domingo
40° 25°
Segunda
39° 22°
Terça
38° 23°
Quarta
38° 23°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 +0,10%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 468,403,60 +0,17%
Ibovespa
192,114,55 pts 2.63%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias