Geral Identidade
O Nome que Pesava no Casco
Uma fábula sobre os nomes que recebemos, os pesos que carregamos e a coragem de voltar a pertencer a nós mesmos
24/07/2026 20h00 Atualizada há 2 meses
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira

Uma fábula sobre os nomes que recebemos, os pesos que carregamos e a coragem de voltar a pertencer a nós mesmos

Chamavam-no de Traste.

Ninguém sabia quando aquela palavra passara a fazer parte de seu nome. Os mais antigos diziam que vinha de longe, atravessando gerações de jabutis como uma herança que ninguém pensara em questionar.

Não havia maldade em sua origem.

Era apenas um nome de família.

O sofrimento começou depois, quando os outros animais descobriram que aquela palavra também podia ser usada para ferir.

— Lá vem o Traste! — gritavam os tucanos.

E riam.

Na escola da mata, alguns faziam questão de pronunciar seu nome por inteiro:

— Bom dia, senhor Traste!

Outros se aproximavam com falsa curiosidade:

— Seu nome é mesmo esse?

Ele respondia que sim, quase sempre olhando para o chão.

No começo, acreditou que conseguiria se acostumar. Afinal, era apenas uma palavra.

Mas os nomes não são apenas sons.

Alguns acolhem.

Outros ferem.

E há aqueles que, de tanto serem pronunciados contra nós, acabam pesando mais do que tudo aquilo que carregamos nas costas.

Cada vez que respondia à chamada, seu casco ficava um pouco mais pesado.

Cada vez que precisava dizer o nome para receber um remédio, fazer um registro, ocupar um lugar numa viagem ou simplesmente apresentar-se, suas patas afundavam um pouco mais na terra.

O que deveria identificá-lo havia se transformado num aviso.

Antes mesmo de pronunciar o nome, ele já esperava pelo espanto, pelo sorriso contido ou pela gargalhada.

Com o tempo, o casco que a natureza lhe dera como abrigo transformou-se numa prisão de pedra. Sobre as costas, ele já não carregava apenas sua casa e a história de seus antepassados.

Carregava também todos os risos que aquela palavra provocara.

Certa tarde, faminto, tentou alcançar uma folha caída junto a uma amendoeira. Estendeu o pescoço e moveu as patas, mas o peso não permitiu que avançasse.

Foi quando uma velha tartaruga-de-água-doce, moradora de um igarapé próximo, parou para observá-lo.

— Por que você carrega essa pedra toda, irmão?

O jabuti respondeu, ofegante:

— Não é uma pedra. É o meu casco.

Depois de algum silêncio, acrescentou:

— E é também o meu nome.

A tartaruga aproximou-se.

— O casco, a natureza te deu. Nele estão suas marcas, suas raízes e tudo o que o trouxe até aqui. Mas esse peso foi colocado, pouco a pouco, pelas bocas dos outros.

Durante toda a vida, o jabuti acreditara que retirar uma parte de seu nome seria o mesmo que negar sua família.

A tartaruga pareceu adivinhar seu pensamento.

— Honrar seus antepassados não significa aceitar que uma palavra continue ferindo você.

— Mas o nome veio deles.

— A origem veio deles — respondeu ela. — A crueldade, não. Seus antepassados lhe deram uma história. Foram os outros que transformaram parte dela em humilhação.

— E o que devo fazer?

— Descobrir se essa palavra ainda o identifica ou se apenas o aprisiona.

Naquela noite, o jabuti não dormiu.

Recordou os antigos de sua família, os caminhos que haviam aberto na mata, as secas que atravessaram e os filhotes que protegeram.

Percebeu, então, que sua origem era muito maior do que uma única palavra.

Retirá-la não apagaria seus antepassados.

Na manhã seguinte, partiu em busca do Cartório da Floresta.

O cartório funcionava dentro de uma gameleira tão antiga que suas raízes formavam corredores sobre o chão. Dizia-se que ali o vento registrava o nome das criaturas e guardava, numa raiz oca, as folhas que continham suas histórias.

O jabuti chegou depois de muitos dias.

Esperou sob o sol.

Esperou sob a chuva.

Até que, numa madrugada, o Vento-Escrivão desceu pelos galhos.

— O que deseja aquele que esperou sem partir?

O jabuti levantou a cabeça.

Sua voz tremia.

Sua decisão, não.

— Quero retirar uma palavra de meu nome.

As folhas estremeceram.

— Essa palavra atravessou gerações. Deseja apagar sua família?

— Não.

— Deseja esconder sua origem?

— Não.

— Então por que pretende retirá-la?

O jabuti olhou para o próprio casco.

Não possuía documentos cobertos de carimbos nem testemunhas ilustres.

Tinha apenas a própria vida.

E foi ela que apresentou.

Contou sobre as gargalhadas na escola da mata e os cumprimentos demorados, feitos apenas para que seu nome fosse pronunciado diante de todos.

Falou das vezes em que precisou repeti-lo para receber um remédio, viajar ou responder à chamada.

Com o tempo, passara a temer uma pergunta que para qualquer outra criatura parecia simples:

— Qual é o seu nome completo?

— Para os outros, talvez fosse somente uma palavra curiosa — explicou. — Para mim, era o instante, sempre renovado, de esperar pelo riso que viria depois.

Em seguida, falou de sua família.

Recordou as lutas e os sacrifícios daqueles que o antecederam. Disse que não se envergonhava de seu sangue nem pretendia negar suas raízes.

— Não quero apagar minha origem. Quero apenas retirar dela o espinho que cresceu para dentro de mim.

O Vento-Escrivão permaneceu em silêncio.

Cada gargalhada tornara-se um testemunho.

Cada humilhação, uma certidão.

Cada vez que precisara dizer o nome com medo, uma prova.

Quando o jabuti terminou, uma folha velha e escura, marcada com a palavra “Traste”, desprendeu-se das demais.

As outras permaneceram.

Nelas continuavam escritos os nomes de sua família, os caminhos de seus antepassados e tudo aquilo que verdadeiramente o ligava à sua história.

Apenas aquela palavra foi levada pelo vento.

— O registro será corrigido — anunciou o Vento-Escrivão. — Você não renunciou à sua origem. Retirou somente aquilo que, em vez de identificá-lo, passou a ferir sua dignidade.

Na manhã seguinte, o jabuti despertou com uma sensação desconhecida.

Leveza.

Seu casco continuava ali, com as mesmas marcas, rachaduras e cicatrizes. Nada havia sido apagado.

Ainda assim, parecia feito de ar.

Ele se levantou, deu um passo e depois outro.

Uma capivara que costumava rir de seu nome passou por perto e perguntou:

— Como devemos chamá-lo agora?

O jabuti não inventou outro nome.

Não precisava transformar-se em outra criatura.

Limitou-se a dizer os nomes que havia preservado — aqueles nos quais ainda reconhecia sua família, sua história e a si mesmo.

A capivara os repetiu.

Dessa vez, ninguém riu.

O jabuti sorriu e continuou caminhando.

Pela primeira vez, a floresta não o chamou por aquilo que o constrangia.

Chamou-o pelo nome que sempre existira depois do peso.

Quando a fábula encontra a vida

Esta história tem a forma de uma fábula, mas nasceu do espelho.

Durante muitos anos, carreguei em meu sobrenome uma palavra:

Beleza.

Era uma herança legítima de minha família. O sofrimento não estava em sua origem, mas na maneira como a palavra passou a repercutir dentro de mim e a ser usada pelos outros.

Desde a infância, vieram as gargalhadas, os cumprimentos em que pronunciavam propositalmente meu nome completo e o constrangimento de repeti-lo em escolas, viagens, prontuários e cadastros.

Com o tempo, passei a temer uma pergunta absolutamente comum:

— Qual é o seu nome completo?

Antes de responder, eu já esperava pela reação.

Dentro de mim, repetia-se outra pergunta:

Beleza de quê?

Para quem nunca carregou uma palavra que o ferisse, isso pode parecer pequeno. Era apenas um sobrenome.

Mas existem palavras que cabem perfeitamente num documento e não conseguem habitar em paz dentro de uma pessoa.

Não culpo minha família.

Não tenho vergonha de minha origem nem desejei apagar aqueles que vieram antes de mim. Preservei os sobrenomes nos quais reconheço minha linhagem e retirei somente aquilo que havia se transformado em peso.

O Direito reconheceu que havia uma razão legítima para essa mudança.

A alteração aconteceu no registro.

A libertação começou quando compreendi que honrar meus antepassados não me obrigava a continuar sofrendo em silêncio.

Nada retirei de minha história.

Retirei apenas aquilo que já não conseguia viver em paz dentro de mim.

Hoje, quando assino meu nome, ele finalmente me cabe.

Não é mais uma pergunta.

É uma resposta.

Se alguém me perguntar:

Paulo Roberto de quê?

De Araújo Pereira.

A beleza que procurei durante tantos anos nunca dependeu daquele sobrenome.

Estava na coragem de encontrar um nome no qual, finalmente, eu pudesse caber.

 

Referências jurídicas: Código Civil, art. 16; Lei nº 6.015/1973, arts. 55 a 57; e Código Nacional de Normas do Conselho Nacional de Justiça, art. 515-I.

Sobre o autor

Paulo Roberto de Araújo Pereira é servidor público, professor e escritor. Vive em Plácido de Castro desde 1985, cidade onde transforma memórias, vivências e histórias de sua gente em palavras.