Geral Alegoria
A Velha Ariranha e o Rio que Não Esquecia
O rio esquece as pegadas, mas não o amor.
25/07/2026 21h07 Atualizada há 2 meses
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira

A Velha Ariranha e o Rio que Não Esquecia

 Quando o amor se cala, a lei precisa recordar que o cuidado também é dever.

 

O Leite

Nas margens de um rio antigo, onde as samaúmas mergulhavam suas sombras nas águas, vivia uma ariranha com seus três filhotes.

Durante muito tempo, ninguém soube dizer quando ela dormia.

Antes do primeiro peixe, alimentara-os com o próprio leite. De seu corpo vinha o sustento; de seu calor, a proteção; de sua vigilância, a certeza de que poderiam dormir sem conhecer os perigos que rondavam a toca.

Se o rio crescia durante a noite, carregava-os, um de cada vez, para um barranco mais alto. Se algum adoecia, permanecia acordada, lambendo-lhe o pelo até que o sol atravessasse as folhas.

Quando a comida era pouca, dividia o peixe em três partes e dizia:

— Comam. Eu já encontrei outro pelo caminho.

Era mentira.

Quando o menor tremia de frio, ela o envolvia com o próprio corpo:

— Não estou com frio.

Também era mentira.

Quando voltava com o peito arfando:

— Apenas nadei depressa demais.

Nem sempre era verdade.

Houve dias em que estava doente e, mesmo assim, entrou no rio. Dias em que não tinha forças, mas tinha filhos esperando.

E isso bastava para que mergulhasse outra vez.

 

A Curva

Ela os ensinou a nadar contra a correnteza, a escapar das redes, a distinguir um galho inofensivo dos olhos imóveis de um jacaré.

Quando fracassavam, dizia:

— Outra vez.

Quando conseguiam, afastava-se, para que pensassem que haviam aprendido sozinhos.

Os anos passaram. Os filhotes tornaram-se fortes.

O primeiro seguiu rio acima. Antes de desaparecer na curva, virou a cabeça uma vez. Depois, acelerou e não olhou mais.

O segundo construiu uma toca depois da curva. Na primeira noite, voltou. Na segunda, também. Na terceira, não voltou mais.

O terceiro — o menor, aquele que ela envolvera com o próprio corpo nas madrugadas de frio — ficou uma estação inteira. A mãe chegou a pensar que ele não partiria.

Mas partiu.

No começo, ainda voltavam. Depois, só apareciam quando precisavam de alguma coisa.

Ela sempre os recebia. Nunca perguntou por que demoraram.

Mãe alguma conserva um livro de dívidas.

Mas os filhos, entre si, conservavam outra coisa. Quando o terceiro ainda ficava ajudando a mãe, os outros diziam nas margens distantes:

— Ele só fica porque quer o melhor lugar quando ela morrer.

A mãe ouvia. Não corrigia. Corrigir seria obrigá-los a escolher entre a verdade e a desculpa.

E ela ainda os protegia disso.

 

A Garça

A doença veio sem ruído.

Primeiro, roubou-lhe a agilidade. Depois, o apetite. Por fim, a independência.

Mas houve uma coisa que a enfermidade não conseguiu diminuir. Mesmo faminta e sem forças, ainda perguntava ao rio:

— Meus filhos estão bem?

Certa manhã, percebeu que já não conseguia caçar. Arrastou-se até a entrada da toca e esperou.

O primeiro passou ao entardecer. Viu a mãe. Abriu a boca. Fechou.

— Minha toca está cheia de problemas. Quando melhorar, volto.

E seguiu.

Não olhou para trás.

O segundo deixou um peixe pequeno.

— Não se acostume. Cada um precisa aprender a cuidar de si.

A mãe olhou para o peixe. Depois, para o filho. Não lhe perguntou se, quando ele era pequeno, também deveria ter aprendido a cuidar de si.

O terceiro não veio.

Mandou recado por uma garça.

— Ele pede que a senhora entenda. Está longe. Quando puder, aparece.

A garça hesitou antes de voar. Bateu as asas duas vezes sem sair do lugar. Depois partiu.

O terceiro doía mais.

Não pela ausência.

Pela garça.

Porque não conseguira dizer com a própria voz.

E isso significava que sabia.

E, mesmo sabendo, não viera.

O rio perguntou:

— Por que não os chama?

Ela respondeu:

— Porque uma mãe pode suportar a fome. O que dificilmente suporta é precisar implorar aos filhos que cumpram aquilo que a vida já lhes ensinou.

 

O Barro

 

 

Então o rio baixou.

Não se enfureceu. Apenas recuou, devagar, como quem puxa uma coberta para revelar o que estava embaixo.

E, no leito seco, os três filhos — cada um em sua margem, cada um em sua noite — viram.

Viram as pegadas da mãe no barro.

Pequenas.

Arrastadas.

Sempre voltando.

Viram os ossos dos peixes que ela não comera.

Mais do que imaginavam.

Viram o lugar onde dormia: perto da entrada.

Não no fundo.

Na entrada.

Para que o perigo a encontrasse primeiro.

E viram o peixe dividido em três partes.

E perceberam que nunca existira uma quarta.

O rio não falou.

Não precisou.

O primeiro viu a própria toca cheia de filhotes e pensou:

Quem lhes ensinará a voltar?

O segundo viu o peixe que repartia entre os pequenos e pensou:

Um dia eles repartirão comigo?

O terceiro viu a garça dormindo na margem e pensou:

Eu mandei uma garça. Para a minha mãe.

Naquela noite, os três nadaram de volta.

Não porque o rio os arrastou.

Porque o rio os deixou ver.

 

O Peixe

Chegaram quando o sol desaparecia atrás das samaúmas.

Encontraram a velha ariranha deitada diante da toca.

Por um instante, julgaram que dormia.

O menor encostou o focinho em seu rosto.

O segundo depositou diante dela o peixe maior.

O mais velho começou a explicar por que demorara.

Mas a mãe não abriu os olhos.

O rio correu em silêncio.

Não houve condenação. Na floresta, não existia tribunal capaz de devolver àquela mãe os dias em que mais precisara.

Restou-lhes apenas aquilo que nenhuma Justiça repara:

o cuidado que chegou depois da necessidade;

o alimento oferecido depois da fome;

a presença que apareceu depois da solidão;

o amor que resolveu falar quando já não podia ser ouvido.

O peixe continuou no mesmo lugar.

Era o maior que já haviam pescado.

E também o mais inútil.

 

O Espelho

Os três também envelheceram.

E, nas noites em que o rio baixava, observavam os próprios filhos dormindo, sabendo que um dia eles cresceriam e partiriam.

Nunca lhes contaram o que haviam feito.

 

 

A vergonha tem uma gramática própria, e nela não existe a frase:

— Deixei minha mãe morrer enquanto lhe mandava recados por uma garça.

Então calaram.

E os filhos cresceram.

E partiram.

E o rio, nas noites mais quietas, sussurrava:

— Velhos serão também.

Não como ameaça.

Como espelho.

 

Nota do autor

Esta é uma fábula.

As ariranhas não conhecem constituições nem tribunais. A natureza lhes ensinou pelo instinto aquilo que, entre os homens, precisou ser escrito.

E foi escrito.

Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos enquanto estes ainda não podem cuidar de si. E os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais quando chegam a velhice, a carência ou a enfermidade.

Não é favor.

Não é pagamento pelo amor recebido.

É reciprocidade.

O Código Civil confirma que o dever de prestar alimentos existe tanto de pais para filhos quanto de filhos para pais. O Estatuto da Pessoa Idosa protege quem envelheceu contra a negligência e o abandono.

A lei pode exigir alimento, cuidado e assistência.

O que ela não pode impor é amor, gratidão ou presença verdadeira. Não pode restituir as noites, desfazer a garça nem devolver o peixe que aquela mãe deixou de comer.

Os pais não cuidam dos filhos para cobrar-lhes uma dívida no futuro.

Mas os filhos também não podem receber uma vida inteira de cuidado e, quando chega a vez deles, tratar o amparo como simples escolha.

Envelhecer e precisar dos filhos é parte da vida.

Precisar da Justiça para receber aquilo que deveria nascer da reciprocidade talvez seja uma das maiores solidões humanas.