Diante do Cristo do Abunã, um homem descobriu que certos milagres começam quando alguém oferece a própria força para que outro não desista.
Durante vinte e três noites, aquele homem subiu a escadaria carregando o filho nos braços.
Subia devagar.
Não porque o menino fosse pesado. Aos nove anos, depois de tantos meses de hospital, Gabriel quase não tinha mais peso. O que tornava cada degrau difícil era o medo que o pai carregava junto dele.
A cidade já conhecia aquela cena.
Quando o comércio começava a fechar as portas e o movimento diminuía, Elias aparecia no começo da escadaria. Ajeitava o filho contra o peito, prendia a pequena perna imóvel entre os braços e começava a subida.
No alto, o Cristo permanecia com os braços abertos.
À frente, a cidade.
Aos lados, as casas, as ruas e o comércio.
Atrás, a Bolívia com suas matas.
Mais abaixo, o rio Abunã seguia silencioso, como se soubesse que existem dores diante das quais até as águas precisam passar sem fazer barulho.
Gabriel sofrera um acidente no caminho da escola. Depois das cirurgias, os médicos disseram que ele sobreviveria, mas talvez jamais voltasse a andar.
Elias escutou tudo em silêncio.
A mãe do menino havia morrido quando ele ainda era pequeno. Desde então, eram somente os dois. O pai aprendera a pentear cabelos, preparar merenda, lavar uniforme, medir febre e espantar monstros debaixo da cama. Trabalhara em tudo o que aparecera. Carregara sacos, descarregara caminhões, limpara terrenos e atravessara noites acordado para que nunca faltasse comida.
Não conseguira dar ao filho uma vida de riqueza.
Mas dera-lhe presença.
Depois do acidente, vendeu a motocicleta, as ferramentas e até a aliança que ainda guardava da esposa. Faria qualquer coisa para ver Gabriel novamente de pé.
Qualquer coisa.
Na primeira noite em que subiu até o Cristo, Elias não pediu um milagre.
Apenas sentou o filho no degrau mais alto, ajoelhou-se ao lado dele e disse:
— Estou com medo.
Gabriel fingiu não ter ouvido. Meninos também aprendem a poupar os pais de certas dores.
Na segunda noite, Elias falou um pouco mais:
— Eu prometi à mãe dele que cuidaria do nosso menino.
Na terceira, chorou.
Depois disso, passou a conversar com o Cristo como quem conversa com alguém que já conhece toda a história, mas permite que o sofrimento seja contado mesmo assim.
— Disseram que ele talvez nunca mais ande.
O Cristo permanecia imóvel.
— Se for preciso tirar a força das minhas pernas e colocar nas dele, pode tirar.
O rio seguia lá embaixo.
— Eu já caminhei o bastante.
Gabriel ouvia tudo sem levantar a cabeça.
Durante o dia, o pai o ajudava nos exercícios recomendados. Segurava-lhe os joelhos, movia seus pés, apoiava suas costas e festejava qualquer pequeno movimento.
— Mexeu, filho!
— Foi o senhor que mexeu, pai.
— Mas seu corpo sentiu. Amanhã ele se lembra.
À noite, tornava a carregá-lo até o monumento.
Algumas pessoas diziam que Elias precisava aceitar a realidade. Outras aconselhavam que não alimentasse esperanças impossíveis no menino.
Ele agradecia e continuava subindo.
Não era falta de compreensão. Elias sabia o que os médicos haviam dito. Conhecia a gravidade das lesões. Sabia que fé não era fingir que a dor não existia.
Fé, para ele, era impedir que a dor tivesse a última palavra.
Na vigésima terceira noite, Gabriel estava diferente.
Não quis conversar. Não quis olhar a cidade. Quando o pai o acomodou diante do Cristo, o menino manteve os olhos no chão.
— O que foi?
Gabriel demorou a responder.
— Não quero mais voltar aqui.
Elias sentou-se ao lado dele.
— Por quê?
— Porque Ele não está ouvindo.
O pai olhou para o monumento. As marcas do tempo desciam pela imagem. Havia desgaste nas mãos abertas, manchas na túnica e rachaduras na base.
— Está, sim.
— Então por que eu continuo assim?
Elias não encontrou resposta.
Naquele instante, desejou ter palavras fortes, dessas que os adultos oferecem às crianças quando querem esconder o próprio desespero. Mas tudo o que possuía era cansaço.
Abaixou-se diante do filho e segurou suas mãos.
— Talvez Ele esteja olhando para a cidade e não esteja vendo a gente — disse Gabriel.
Elias contemplou o rosto do Cristo voltado para a frente. Depois olhou para os braços estendidos, alcançando os lados, enquanto às costas do monumento permaneciam a mata e a Bolívia.
— Filho, um pai não precisa estar olhando para saber onde seu menino está.
Gabriel levantou os olhos.
— Como sabe?
— Porque, quando você estava no hospital, eu dormia numa cadeira, de costas para sua cama. Bastava sua respiração mudar e eu acordava.
O menino apertou-lhe os dedos.
— Mesmo dormindo?
— Mesmo dormindo.
Elias respirou fundo e continuou:
— Talvez seja isso que esses braços querem dizer. Ele olha para um lado, mas guarda todos. A cidade diante dele. O comércio nos lados. O rio lá embaixo. A mata atrás. Ninguém fica fora dos braços de quem ama.
Gabriel chorou sem fazer barulho.
O pai o abraçou.
Naquela noite, Elias não pediu que o filho voltasse a andar.
Pediu apenas:
— Não deixe meu menino perder a vontade de tentar.
Quando se levantou para carregá-lo de volta, sentiu uma dor violenta no peito.
Ainda tentou respirar, mas suas pernas falharam. Caiu de joelhos diante do filho e depois tombou sobre o piso frio.
— Pai?
Elias não respondeu.
— Pai!
Não havia ninguém no mirante.
Gabriel gritou. Chamou pelo pai, chamou por socorro, chamou por Deus. Sua voz desceu a escadaria, mas o movimento da rua estava distante. O comércio já fechara. O rio Abunã continuava seu curso como se levasse consigo cada segundo que passava.
O menino olhou para o pai caído.
Depois olhou para a escadaria.
E então fez aquilo que, até aquela noite, não conseguira fazer.
Apoiou as mãos no degrau.
Arrastou o corpo.
Sentiu uma fisgada atravessar-lhe as pernas. Gritou de dor, mas avançou outra vez.
— Alguém ajude meu pai!
Nenhuma resposta.
Agarrou-se à balaustrada e tentou levantar o corpo. Os joelhos tremeram. Os pés pareciam não lhe pertencer. Caiu.
Tentou novamente.
Caiu outra vez.
Na terceira tentativa, lembrou-se da voz de Elias durante os exercícios:
“Seu corpo sentiu. Amanhã ele se lembra.”
Gabriel apertou a borda do muro com toda a força. Uma perna respondeu. Depois a outra.
Ficou de pé por menos de dois segundos.
Foram os dois segundos mais longos de sua vida.
Deu um passo.
Caiu.
Levantou-se de novo.
Desceu parte da escadaria tropeçando, arrastando-se e gritando até ser ouvido por um comerciante que fechava a última porta.
Elias foi socorrido a tempo.
No hospital, quando abriu os olhos, viu o filho sentado numa cadeira ao lado da cama.
— Você está bem? — perguntou, ainda fraco.
Gabriel não respondeu.
Segurou-se nos braços da cadeira, levantou devagar e deu três pequenos passos em direção ao pai.
Elias tentou se erguer, mas não conseguiu. Apenas abriu os braços.
O menino caiu sobre seu peito.
Ninguém soube explicar com certeza o que acontecera naquela noite. Os médicos falaram em resposta neurológica inesperada, impulso extremo, movimentos preservados que ainda não haviam se manifestado. Disseram que aquilo não significava cura completa e que haveria um longo tratamento pela frente.
Elias escutou tudo.
Ele sabia que ainda existiriam dores, quedas, exames e dias difíceis.
Mas também sabia que seu filho se levantara não porque deixara de sentir medo.
Levantara-se porque o amor lhe dera uma razão maior do que o medo.
Meses depois, os dois voltaram ao mirante.
Gabriel ainda caminhava com dificuldade. Apoiava-se no braço do pai, enquanto Elias levava a mão ao peito, no lugar onde agora carregava a cicatriz da cirurgia.
Subiram juntos.
Um degrau de cada vez.
No alto, não pediram nada.
Ficaram apenas olhando o Cristo, com seus braços abertos para todas as direções. Diante dele, a cidade continuava vivendo. Aos lados, o comércio recomeçava seu movimento. Atrás, as matas da Bolívia respiravam sob o vento. Lá embaixo, o Abunã seguia seu curso.
Gabriel apertou a mão do pai.
— Naquela noite, Ele fez você cair para eu me levantar?
Elias olhou demoradamente para o filho.
— Não sei, meu menino. Há perguntas que a fé não responde. Apenas nos ensina a continuar caminhando.
Deram alguns passos em silêncio.
Antes de iniciarem a descida, Gabriel voltou-se para o monumento e percebeu algo que jamais esqueceria:
o Cristo continuava imóvel.
Mas, desde aquela noite, nenhum dos dois poderia dizer que Ele não se movera.
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