
Os Fantasmas do Abunã
Há pais que precisam desaparecer de si mesmos para que os filhos não desapareçam da vida.
O rio Abunã passava lentamente diante da colocação, levando folhas, galhos e segredos que ninguém tinha coragem de recolher.
Na margem de cá, havia uma casa pequena, erguida sobre esteios de madeira. Na margem de lá, a floresta boliviana permanecia fechada e escura, como se guardasse a noite mesmo durante o dia.
Ali vivia um homem com a esposa e três filhos.
Não possuíam dinheiro, mas raramente conheciam a fome.
Antes que o primeiro pássaro anunciasse a manhã, o pai já estava de pé. Acendia o fogo, tomava café sem açúcar e desaparecia pelas estradas de seringa, carregando o terçado, a poronga e uma sacola de pano com um pedaço de macaxeira cozida.
Seu corpo conhecia cada curva da mata.
Sabia onde o terreno afundava, onde as cobras procuravam abrigo e onde as castanheiras antigas levantavam as copas acima de todas as outras árvores. Reconhecia a proximidade da chuva pelo cheiro da terra e a passagem de um animal pelo silêncio repentino dos pássaros.
Depois da seringa, cuidava do roçado.
Plantava arroz, milho, feijão e macaxeira. Fazia farinha no velho forno de barro. Quando a despensa apertava, entrava mais fundo na mata e só voltava quando conseguia alguma caça, peixe ou frutas silvestres.
Tudo o que chegava à mesa passava primeiro pelas mãos dele.
Os filhos nunca souberam disso.
Para eles, o peixe simplesmente aparecia limpo sobre a folha de bananeira. A farinha enchia a lata. O feijão brotava na panela. A lenha permanecia cortada ao lado do fogão.
Crianças quase nunca sabem o tamanho da luta que existe antes da comida.
E aquele homem fazia questão de que não soubessem.
A esposa percebia seu cansaço, mas ele sempre respondia:
— Amanhã melhora.
Mesmo nos dias em que não havia razão alguma para acreditar nisso.
À tardinha, os meninos corriam pelo terreiro. Faziam pequenos barcos com pedaços de madeira e os soltavam perto da margem. O pai fingia que eram grandes embarcações e anunciava, com voz de comandante, que partiriam rumo ao mundo.
Os filhos riam.
Ele também.
Naquele tempo, o mundo deles cabia entre a casa, o roçado, o rio e a mata.
Era uma vida dura.
Mas era a vida que ele sabia viver.
Até que as noites começaram a mudar.
Primeiro foram os cachorros.
Rosnavam para a floresta e, logo depois, escondiam-se debaixo da casa com o rabo entre as pernas. Vieram então as galinhas, que se agitavam no poleiro e batiam as asas como se alguma coisa circulasse por baixo delas.
Certa madrugada, o pai acordou com um assobio vindo da margem oposta.
Abriu os olhos e ficou imóvel.
O assobio tornou a soar.
Mais próximo.
Ele se levantou sem despertar a esposa, pegou a espingarda e saiu. A lua clareava o terreiro, mas nenhuma folha se movia.
Foi então que escutou passos.
Não vinham do caminho.
Contornavam a casa.
Lentos.
Pesados.
Como se alguém procurasse uma porta que não deveria encontrar.
Ele apertou a espingarda contra o peito e permaneceu ali até o amanhecer.
Não contou nada à família.
Um pai aprende cedo a engolir certos medos para que os filhos durmam em paz.
Nas noites seguintes, os passos voltaram.
Às vezes, paravam debaixo da janela das crianças. Em outras, seguiam até a beira do rio e desapareciam sem que se ouvisse o ruído de uma canoa.
Uma manhã, ele encontrou pegadas no barro.
Pareciam de homem, mas eram fundas demais.
Começavam perto da mata e terminavam diante da janela do filho menor.
Não havia marcas de retorno.
O homem apagou tudo com os pés antes que alguém visse.
Depois disso, começou a dormir sentado junto à porta, com a espingarda atravessada sobre os joelhos.
A esposa perguntava:
— Por que você não se deita?
— Estou esperando o sono chegar.
Mas o que esperava mesmo era a noite terminar.
Certa madrugada, o menino mais novo apareceu na sala. Estava pálido e trazia os olhos molhados.
— Pai...
O homem o tomou nos braços.
— O que foi, meu filho?
A criança apontou para a janela.
— O homem de fora chamou meu nome.
O pai sentiu o sangue esfriar.
Naquela madrugada, o medo chamou uma criança pelo nome — e encontrou um pai acordado.
Não perguntou como era o homem. Não abriu a janela. Não saiu com a espingarda.
Apenas segurou o filho contra o peito até o dia clarear.
Na manhã seguinte, procurou o velho Raimundo, morador antigo de uma colocação rio abaixo.
O velho ouviu tudo sem interrompê-lo. Depois retirou o chapéu, passou a mão pelos cabelos brancos e olhou demoradamente para a floresta.
— Há coisas nesta mata que não foram feitas para o entendimento dos homens — disse. — Mas nunca se esqueça: o medo só vence aquele que perde a fé.
O pai baixou a cabeça.
— Eu aguento, seu Raimundo. O que não posso é deixar que alcance meus filhos.
O velho percebeu que a decisão já estava tomada.
— Está pensando em ir embora?
— Estou.
— E sabe fazer o quê na cidade?
O homem demorou a responder.
Sabia sangrar seringueira, derrubar mato, plantar, caçar, pescar, fazer farinha e conduzir uma canoa quando o rio se levantava furioso.
Mas não sabia preencher uma ficha.
Não conhecia máquinas.
Não tinha estudo.
Na cidade, toda a sabedoria que possuía talvez não valesse o preço de um pão.
— Não sei — confessou.
O velho tornou a colocar o chapéu.
— Então vá preparado. A cidade também tem assombrações. Lá os fantasmas não assobiam na mata. Moram no aluguel cobrado, no caderno de fiado, na falta de trabalho e na vergonha de um pai que olha para os filhos sem saber o que colocará na mesa.
O homem permaneceu em silêncio.
— Mas existe uma diferença — continuou Raimundo. — Dos fantasmas da cidade ninguém pode fugir. É preciso enfrentá-los acordado.
Naquela noite, ele contou à esposa que partiriam.
Não falou das pegadas nem da voz que chamara o menino. Disse apenas que os filhos precisavam estudar e que a vida poderia ser melhor na cidade.
A mulher olhou para o roçado, para o forno de farinha e para as árvores que cercavam a casa.
— E você? O que vai ser de você lá?
Ele sorriu com uma tristeza que ela nunca esqueceria.
— O que for preciso.
Durante três dias, prepararam a partida.
Levaram algumas roupas, duas panelas, documentos embrulhados em plástico e uma fotografia da família. Tudo coube numa mala de lona e em duas caixas amarradas com corda.
Antes de fechar a porta, o homem caminhou sozinho pelo terreiro.
Tocou o tronco de uma seringueira. Olhou o roçado recém-plantado. Passou a mão pelo forno onde fizera farinha durante tantos anos.
Aquela terra conhecia seus passos.
Aquela casa guardava as primeiras palavras dos filhos, suas febres, seus choros e suas risadas. Ali ele enterrara o umbigo das crianças, como faziam os antigos, para que jamais esquecessem de onde vieram.
Agora era ele quem precisava arrancar as próprias raízes.
Entraram no barco ainda cedo.
Enquanto o motor empurrava a embarcação pelo Abunã, os filhos observavam a mata como quem acreditava estar começando uma aventura. A esposa escondia o choro.
O pai permanecia na parte de trás, olhando a casa diminuir.
Por um instante, pareceu enxergar uma figura parada diante da janela.
Não soube dizer se era gente, sombra ou apenas a saudade tomando forma.
A figura não os seguiu.
Não precisava.
Os outros fantasmas já os esperavam.
No fim da década de 1970, Plácido de Castro ainda parecia uma clareira aberta à força no meio da floresta.
As casas eram poucas e espaçadas. Algumas ruas de terra terminavam em capoeiras, goiabais e terrenos onde o mato crescia como se quisesse tomar de volta o lugar.
Bicicletas passavam devagar. Cachorros dormiam diante das portas. Nos quintais, criavam-se galinhas como nas colocações.
À noite, os velhos bares acendiam suas luzes fracas. Quando havia festa no Clube Guarany, a sanfona atravessava as poucas ruas, passava sobre os telhados e se perdia na escuridão.
Para quem já vivia ali, aquela era uma cidade pequena.
Para a família que acabava de deixar a colocação, era outro mundo.
Alugaram um quarto nos fundos de uma casa simples.
O telhado vazava. O calor permanecia preso entre as paredes de madeira. Os filhos, acostumados ao terreiro sem cercas, já não podiam correr livremente. Dormiam apertados, enquanto uma bacia recebia as gotas da chuva.
Na colocação, a casa era pobre, mas havia espaço.
O rio lhes dava peixe. A mata oferecia caça. O roçado entregava macaxeira, arroz, milho e feijão. A farinha descansava na lata e ninguém lhes cobrava pelo pedaço de chão onde os meninos corriam.
Na cidade, até a pobreza vinha acompanhada de cobrança.
Tudo tinha preço.
A água.
A luz.
O pão.
O querosene.
O sabão.
O quarto apertado.
E até a esperança parecia exigir pagamento adiantado.
Durante semanas, o pai procurou trabalho.
Suas mãos sabiam sustentar uma família inteira dentro da floresta, mas pareciam inúteis diante das portas da cidade.
— Tem experiência?
Ele mostrava as palmas calejadas.
— Tenho força e vontade.
As pessoas olhavam rapidamente.
— Se aparecer alguma coisa, mandamos chamar.
Quase nunca mandavam.
Saía antes do amanhecer, muitas vezes numa bicicleta emprestada. Levava o terçado preso ao quadro e percorria as ruas procurando algum quintal para roçar, madeira para carregar, terreno para limpar ou mercadoria para descarregar.
Não escolhia trabalho.
Escolher era privilégio de quem podia regressar sem nada.
Carregou madeira, limpou terrenos, cavou fossas e empurrou carrinhos de mão sob o sol. Recebia pouco e voltava quando os filhos já estavam dormindo.
Quando conseguia algum dinheiro, procurava o lugar onde o rancho custasse menos. Trazia arroz, farinha, açúcar, querosene e sabão.
Os filhos corriam para recebê-lo como se trouxesse uma fortuna.
Talvez trouxesse.
Para um pai pobre, riqueza nem sempre é aquilo que sobra. Muitas vezes, é apenas aquilo que ele consegue impedir que falte.
Havia noites em que a sanfona do Guarany alcançava o pequeno quarto.
A cidade dançava.
Os bares permaneciam acesos.
Algumas bicicletas ainda cortavam as ruas escuras.
Sentado diante de uma caixa de madeira que lhes servia de mesa, o homem contava as últimas moedas.
Contava uma vez.
Depois outra.
A música era alegre.
A conta, não.
Em certas noites, o dinheiro permitia comprar alimento apenas para as crianças.
A esposa percebia que ele não comia.
— Você não vai jantar?
— Comi no trabalho.
Era mentira.
Bebia água, deitava-se com o estômago vazio e permanecia acordado, ouvindo a respiração dos filhos.
As assombrações da cidade não caminhavam ao redor da casa.
Sentavam-se com ele à mesa.
Viviam no aluguel cobrado, no caderno de fiado que já não podia aumentar, no fundo vazio da lata de farinha e nos olhos das crianças esperando que o pai voltasse com alguma coisa nas mãos.
Certa noite, depois de um dia inteiro procurando serviço, o homem regressou sem mantimentos.
Parou diante da porta.
Do lado de dentro, ouviu as vozes dos filhos. Não encontrou coragem para entrar.
Ao longe, a sanfona do Guarany tocava uma música alegre, dessas que faziam os pares baterem os pés no assoalho.
A cidade dançava enquanto sua família o esperava com fome.
Por alguns instantes, teve saudade até das assombrações da mata.
Lá, pelo menos, sabia onde se esconder, como proteger a casa e para que lado apontar a espingarda.
Na cidade, o inimigo não deixava pegadas.
Não assobiava do outro lado do rio.
Aparecia numa porta fechada e na vergonha de um homem que precisava entrar em casa sem levar nada nas mãos.
Quando finalmente entrou, o filho menor correu para abraçá-lo.
— O senhor trouxe pão, pai?
Ele se abaixou devagar.
— Hoje, não.
O menino baixou os olhos. Depois tornou a encará-lo.
— Amanhã o senhor traz?
O pai apertou o filho contra o peito.
— Amanhã eu trago.
Era a mesma esperança oferecida sem possuir certeza alguma.
Na manhã seguinte, antes que a cidade despertasse, ele já estava na rua.
Encontrou um comerciante que precisava descarregar uma pequena carga. Trabalhou com fome, sob o sol, sentindo as pernas fraquejarem.
Quando recebeu o pagamento, comprou pão.
Os filhos ainda acordavam quando ele apareceu com o embrulho debaixo do braço.
Correram ao seu encontro.
O pai sorriu.
Ninguém precisava saber quantas portas ele havia procurado para encher aquela sacola.
Ninguém precisava saber que o homem que lhes trazia pão não comia desde o dia anterior.
Certa noite, o menino mais novo adoeceu.
A febre subiu depressa. O pai o carregou nos braços por várias ruas, debaixo da chuva, até conseguir atendimento.
Durante o caminho, a criança abriu os olhos.
— Pai, aquele homem da mata pode chegar aqui?
Ele apertou o filho contra o peito.
— Não pode.
— Como o senhor sabe?
O pai continuou caminhando.
— Porque eu não deixei que ele atravessasse o rio.
O menino tornou a fechar os olhos.
Não sabia que o pai atravessara o rio levando todos os medos sobre os próprios ombrosOs anos passaram.
As ruas cresceram. Onde havia capoeira, levantaram-se casas. Novas vozes ocuparam os antigos espaços e a cidade afastou a mata para mais longe.
Os filhos cresceram.
Estudaram.
Aprenderam coisas que ele não compreendia.
Um deles partiu para continuar os estudos. Outro conseguiu emprego. O mais novo, aquele que ouvira a voz do lado de fora da janela, tornou-se professor.
A casa melhorou.
A comida deixou de faltar.
O caderno de fiado desapareceu. A lata de farinha já não amanhecia vazia.
E, à medida que os filhos se tornavam alguém, o pai parecia tornar-se cada vez menos.
Primeiro deixou de comprar roupa para si.
Depois já não precisava de sapatos novos.
Parou de falar dos lugares que desejara conhecer, das coisas que gostaria de possuir e até dos pequenos sonhos que um homem guarda sem contar a ninguém.
Quando havia carne suficiente para todos, dizia que preferia farinha com café.
Quando os filhos precisavam de cadernos, algum objeto dele desaparecia.
Quando faltava dinheiro, surgia um serviço que ninguém soubera que ele fizera.
Era como se retirasse pedaços da própria vida e os colocasse, escondidos, dentro da vida dos filhos.
As costas se curvaram.
Os joelhos começaram a falhar.
As mãos, que haviam sangrado seringueiras, aberto roçados, remado contra a correnteza e sustentado sacos pesados, passaram a tremer até para segurar uma xícara.
Mesmo assim, quando alguém perguntava se ele se arrependia de ter deixado a colocação, respondia:
— Nunca.
Certa tarde, o filho mais novo o encontrou sentado diante do rio Abunã.
Havia muitos anos que não voltavam àquele lugar.
Do outro lado, a floresta boliviana permanecia fechada, escura e quase igual àquela que os vira partir. A água passava lentamente, levando folhas, galhos e lembranças que nenhum dos dois conseguia alcançar.
O filho sentou-se ao lado dele.
Durante algum tempo, permaneceram em silêncio.
— O senhor ainda pensa naquela noite? — perguntou.
O velho não desviou os olhos do rio.
— Em qual delas?
— Na noite em que alguém chamou meu nome pela janela.
As mãos do pai se apertaram sobre os joelhos.
— Penso.
— Aquilo existia mesmo?
O velho demorou a responder.
— Existia.
O filho olhou para a mata.
— Era um homem?
— Talvez.
— Uma assombração?
— Pode ser.
— Então por que nunca contou o que viu?
O pai respirou fundo.
— Porque criança não precisa conhecer todos os monstros dos quais um pai a protege.
O filho tornou a olhar para aquelas mãos envelhecidas.
— O senhor foi embora por causa daquela coisa?
— Fui embora por sua causa.
A resposta o atingiu.
— Minha?
— Ela chamou seu nome.
A voz do velho quase se perdeu no barulho da água.
— Naquela madrugada, entendi que poderia enfrentar qualquer coisa que viesse atrás de mim. Mas não suportaria esperar pela noite em que ela conseguisse levar um de vocês.
— E o senhor não teve medo da cidade?
O pai sorriu, mas os olhos não acompanharam o sorriso.
— Todos os dias.
— Mais do que da mata?
— Muito mais.
O velho abaixou a cabeça.
— Na floresta, eu sabia onde estavam os perigos. Na cidade, não sabia de onde viria o golpe. Podia ser a falta de trabalho, uma doença, a fome, o aluguel, uma porta fechada ou a pergunta de um filho querendo saber se haveria pão no outro dia.
A voz começou a falhar.
— Houve noites em que eu voltava sem nada e ficava do lado de fora criando coragem para entrar. Vocês corriam para mim, mas eu não trazia comida. Então prometia que no dia seguinte conseguiria. Depois passava a madrugada acordado, com medo de ter dado a vocês uma esperança que minhas mãos já não fossem capazes de cumprir.
O filho baixou a cabeça.
Lembrou-se dos pães chegando pela manhã.
Da carne dividida em porções desiguais.
Dos sapatos novos que o pai nunca possuía.
Das vezes em que o vira beber apenas água e dizer que já havia comido no trabalho.
Lembrou-se dos cadernos.
Das roupas.
Dos remédios.
Das noites de febre.
Do homem caminhando debaixo da chuva com uma criança nos braços.
E compreendeu, com uma dor quase insuportável, que todas as coisas de sua infância possuíam um preço.
O pai havia pagado por elas.
Não apenas com dinheiro.
Pagara com o corpo.
Com os anos.
Com os sonhos.
Com a fome que escondera.
Com a juventude que ninguém vira terminar.
— Pai...
O velho continuava olhando para o rio.
— Quando saímos daqui, pensei que estava deixando o fantasma para trás. Mas ele veio comigo.
O filho sentiu um arrepio.
— O homem da janela?
— Não.
Pela primeira vez, o pai virou-se para ele.
— O medo.
O rio continuou passando.
— Durante muitos anos, tive medo de não conseguir salvar vocês. Então trabalhei mais. Comi menos. Dormi menos. Quis menos. Fui deixando de lado tudo o que era meu, até não saber mais o que havia sobrado de mim.
O filho tentou falar, mas nenhuma palavra saiu.
— Foi assim que venci — disse o velho.
— Venceu o quê?
— O fantasma.
— Como?
O pai sorriu.
Era um sorriso cansado, quase ausente.
— Tornando-me um.
Naquele instante, o filho compreendeu.
O fantasma jamais estivera apenas do outro lado do rio.
Não era somente a figura que rondara a casa, os passos sem retorno ou a voz que chamara uma criança na escuridão.
O fantasma também era aquele homem que se levantava antes de todos e regressava quando os filhos já dormiam.
Era quem não aparecia nas fotografias porque estava trabalhando.
Quem desaparecia da mesa para que houvesse comida nos outros pratos.
Quem enterrava os próprios desejos para que os filhos pudessem desenterrar os deles.
Quem habitava a casa inteira sem ocupar lugar algum.
Durante anos, aquele pai estivera diante dos filhos — presente, exausto e silencioso — e nenhum deles o enxergara por inteiro.
O filho ajoelhou-se diante do velho.
Tomou-lhe as mãos.
E chorou.
Não como uma criança que sente medo.
Chorou como um homem que acabava de descobrir o custo da própria vida.
— Perdoe-me, pai.
O velho pareceu assustado.
— Pelo quê?
— Por ter demorado tanto para enxergar o senhor.
O pai passou a mão trêmula pelos cabelos do filho.
Era o mesmo gesto com que o acalmara na madrugada em que a voz surgira do lado de fora da janela.
— Era para ser assim — murmurou. — Pai não protege para ser visto.
— Então protege para quê?
O velho contemplou o homem que um dia carregara nos braços.
— Para que um filho possa chegar inteiro ao lugar onde o pai já não consegue ir.
O sol começava a desaparecer por trás da floresta.
As sombras cresceram sobre o rio.
Por um momento, o filho voltou a ser aquele menino assustado que atravessara a casa durante a madrugada à procura dos braços do pai.
Somente agora sabia quem verdadeiramente estivera rondando a janela naquela noite.
Não era a morte.
Era o destino.
Viera chamar uma criança pelo nome.
Viera cobrar-lhe o futuro antes mesmo que ela pudesse vivê-lo.
Mas encontrou um pai acordado junto à porta.
Um homem de espingarda sobre os joelhos, disposto a enfrentar o que quer que surgisse da mata, do rio, da fome ou do tempo.
E o destino não conseguiu entrar.
Para barrá-lo, porém, aquele pai precisou entregar tudo.
A força.
A juventude.
Os sonhos.
O próprio lugar no mundo.
Até converter-se naquela presença silenciosa que ninguém percebia, mas sem a qual nenhum deles teria sobrevivido.
O filho abraçou o velho.
Dessa vez, não tentou agradecer.
Há sacrifícios diante dos quais a gratidão é pequena demais.
Depois de uma vida inteira vigiando portas, o pai finalmente descansou nos braços do filho.
Apenas o segurou com toda a força, como se ainda pudesse impedir que os anos levassem o que restava daquele homem.
O pai fechou os olhos.
Depois de uma vida inteira vigiando portas, finalmente permitiu-se descansar nos braços do filho.
Do outro lado do Abunã, a floresta escureceu.
Nenhum assobio veio da mata.
Nenhum passo contornou a casa.
Nenhuma voz chamou novamente.
O fantasma havia perdido.
Não porque deixara de existir.
Mas porque, entre ele e as crianças, um pai aceitara desaparecer primeiro.
E foi naquele abraço, tarde demais para devolver-lhe a juventude, mas ainda a tempo de devolver-lhe o lugar de pai, que o filho descobriu a verdade mais terrível:
alguns fantasmas assombram porque morreram.
Outros, porque foram esquecidos ainda em vida.
O pai se convertera no único fantasma capaz de derrotar todos os outros — aquele que renuncia à própria vida para continuar vivendo nos filhos.
Mas o filho também compreendeu que o amor não exigia que ele permanecesse assim.
Segurou-o com mais força.
Como se dissesse, sem palavras, que já não precisava vigiar a porta.
Como se prometesse que nunca mais passaria por ele sem enxergá-lo.
E, naquela tarde, à margem do rio onde tudo começara, o velho deixou de ser fantasma.
Voltou a ter corpo.
Voltou a ter nome.
Voltou a ser pai.
Porque os mortos são levados pela terra.
Mas são a indiferença, o egoísmo e a ingratidão que enterram os vivos.
E nenhum filho deveria esperar o túmulo para finalmente enxergar o homem que desapareceu de si mesmo a fim de que ele pudesse existir.
Nota ao leitor — Este é o segundo texto de uma série especialmente escolhida em celebração ao Dia dos Pais. Nesta história, a homenagem alcança aqueles homens que vigiaram portas, enfrentaram medos e, muitas vezes, desapareceram de si mesmos para que os filhos pudessem existir por inteiro.