Sexta, 02 de Outubro de 2026
22°C 39°C
Plácido de Castro, AC
Publicidade

O Pórtico

Há lugares que nos dão boas-vindas. Outros esperam a vida inteira para nos receber de volta.

Paulo Roberto de Araújo Pereira
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira
31/07/2026 às 23h13
O Pórtico

Há lugares que nos dão boas-vindas. Outros perguntam por que demoramos tanto.

Naquela manhã, a caminhonete diminuiu a velocidade quando o motorista avistou o pórtico de Plácido de Castro.

O arco de concreto não existia quando ele foi embora.

Naquele tempo, ninguém precisava de uma placa para saber onde começava a cidade.

Ela começava no aperto de mão.

No vizinho que chamava pelo nome.

Na poeira vermelha das ruas.

Na sombra das mangueiras.

No cheiro da chuva caindo sobre a terra.

Agora, uma grande placa anunciava:

"Bem-vindo a Plácido de Castro."

Ele permaneceu alguns segundos olhando aquelas palavras.

Depois sorriu, como quem escuta uma voz antiga.

Porque, para ele, havia outra frase escondida ali.

"Por que você demorou tanto para voltar?"

Respirou fundo.

Entrou.

 

 

Não sabia explicar por que voltara.

Durante anos inventara desculpas.

O trabalho.

A distância.

Os filhos.

As contas.

A vida.

Como tantos outros filhos de Plácido de Castro, partira em busca de dias melhores.

Prometera voltar.

Mas o tempo possui um jeito silencioso de transformar promessas em saudades.

Conhecera cidades enormes.

Aeroportos.

Prédios.

Pessoas que jamais voltaria a encontrar.

Alguns amigos tinham ido para Rio Branco.

Outros para Porto Velho.

Brasília.

São Paulo.

Havia quem tivesse atravessado a fronteira.

Havia quem morasse em Portugal.

Nos Estados Unidos.

No Japão.

Todos levavam a mesma promessa escondida na bagagem.

"Assim que puder... eu volto."

Nem todos conseguiram.

 As ruas pareciam menores.

Ou talvez ele tivesse crescido demais.

A praça continuava ali.

A igreja permanecia em silêncio, como sempre fizera.

As árvores eram outras.

Mas o vento parecia o mesmo.

Então passou diante do antigo mercado.

O pé saiu do acelerador quase sem querer.

Parou.

Desceu.

O prédio continuava de pé.

Fechado.

Desativado.

Silencioso.

Já não havia feirantes.

Nem bancas.

Nem o movimento que durante tantos anos dera vida àquele pedaço da cidade.

As portas permaneciam cerradas.

Mas havia lugares que continuam funcionando apenas na memória.

 

 

Aproximou-se.

Passou lentamente a mão sobre a parede marcada pelo tempo.

Fechou os olhos.

E o mercado abriu outra vez.

Ouviu os vendedores anunciando farinha.

Sentiu o cheiro do café recém-coado.

Da carne de sol.

Do peixe seco.

Das frutas.

Escutou o riso das crianças.

O vozerio dos fregueses.

Viu sua mãe segurando firme sua mão para que ele não se perdesse entre tanta gente.

Naquele tempo reclamava daquele aperto.

Hoje daria qualquer coisa para senti-lo novamente.

 

 

Foi então que ouviu, como se o tempo houvesse dado um passo para trás, a voz de um velho comerciante dizendo ao pai:

— Seu filho vai longe.

O pai sorriu.

Passou a mão sobre sua cabeça.

E respondeu com uma serenidade que só os pais possuem:

— Pode até ir...

...mas sei que um dia ele volta.

Abriu os olhos.

O mercado permanecia fechado.

Mas alguma coisa dentro dele acabara de despertar.

 Continuou caminhando pela cidade.

Cada esquina lhe devolvia um pedaço da infância.

A escola.

As calçadas.

Os quintais.

As tardes que pareciam não terminar.

Foi então que compreendeu.

Não era ele quem reconhecia Plácido de Castro.

Era Plácido de Castro que ainda o reconhecia.

 A velha casa permanecia onde sempre estivera.

Empurrou a porta.

O piso de madeira ainda estalava.

O velho relógio permanecia parado.

No quarto encontrou o guarda-roupa.

Dentro dele, uma pequena caixa.

Sobre a tampa, apenas seu nome.

Abriu.

Fotografias.

Um terço.

Bilhetes.

E um envelope amarelado.

Reconheceu imediatamente a letra.

Era do pai.

"Para quando você voltar."

Sentou-se.

Abriu devagar.

 

Filho,

Se estas palavras chegaram até você, então finalmente voltou.

Quero que saiba de uma coisa.

Nunca achei errado você partir.

Pai nenhum deve prender os sonhos de um filho.

Só queria que você nunca esquecesse que esta sempre foi a sua casa.

E que esta cidade nunca deixou de ser sua.

Todos os fins de tarde eu olhava para a estrada.

Não porque tivesse certeza de que você chegaria naquele dia.

Mas porque pai nunca aprende a desistir da esperança.

Quando voltar...

Entre sem bater.

Você nunca deixou de morar aqui.

Com amor,

Seu pai.

 

As lágrimas caíram lentamente sobre o papel.

Nenhuma palavra conseguiria responder aquela carta.

A tarde já caía.

Antes de partir, percorreu mais uma vez as ruas da cidade.

Passou pela praça.

Olhou demoradamente a igreja.

Diminuiu novamente diante do antigo mercado.

Agora já não via um prédio fechado.

Via a infância inteira esperando por ele.

Seguiu pela avenida que conduzia à saída de Plácido de Castro.

Alguns minutos depois surgiu o pórtico.

 

 

Parou a caminhonete.

Desligou o motor.

O silêncio tomou conta da estrada.

Na chegada imaginara que o pórtico lhe fizera uma pergunta.

Agora compreendia.

Não era o pórtico.

Nunca fora.

Era a voz do pai.

"Por que você demorou tanto para voltar?"

Fechou os olhos.

Quando os abriu, o sol desaparecia atrás das árvores.

Ligou a seta.

Fez o retorno.

E voltou para dentro da cidade.

 

Epílogo

Talvez, enquanto você termina esta história, exista um filho de Plácido de Castro trabalhando em Rio Branco.

Outro em Porto Velho.

Outro em Brasília.

Talvez alguém esteja vivendo na Bolívia, em Portugal, nos Estados Unidos, no Japão ou em qualquer outro lugar onde a vida o levou.

Talvez exista alguém que, de vez em quando, abra no celular uma fotografia da cidade e diga baixinho:

— Um dia eu volto.

As cidades pequenas sabem que seus filhos precisam partir.

Para estudar.

Para trabalhar.

Para sonhar.

Nunca os impedem de ir.

Mas também nunca deixam de esperá-los.

Talvez seja por isso que nenhum mapa consiga medir a distância entre uma cidade e seus filhos.

Porque essa distância nunca foi feita de quilômetros.

Foi feita de saudade.

E há viagens que atravessam estradas.

Outras atravessam fronteiras.

Mas nenhuma é maior do que aquela que nos devolve ao lugar onde alguém nunca deixou de acreditar que voltaríamos.

Plácido de Castro continua esperando.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Gente de Direito
Gente de Direito
Gente de Direito é uma coluna dedicada a dar voz às histórias de pessoas simples, cujas trajetórias refletem coragem, dignidade e luta por justiça. Aqui, os direitos ganham rosto e nome, com relatos inspiradores e conteúdos acessíveis sobre cidadania, leis e conquistas sociais. Um espaço onde a vida real e o direito caminham lado a lado.
Ver notícias
Plácido de Castro, AC
28°
Tempo nublado
Mín. 22° Máx. 39°
29° Sensação
0.81 km/h Vento
52% Umidade
22% (0.15mm) Chance chuva
07h11 Nascer do sol
19h24 Pôr do sol
Sábado
39° 25°
Domingo
40° 25°
Segunda
39° 22°
Terça
38° 23°
Quarta
38° 23°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 +0,10%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 467,913,53 +0,07%
Ibovespa
192,114,55 pts 2.63%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias