
Na madrugada de 6 de agosto de 1902, um homem anunciou que não era festa — era revolução. Seis anos depois, o mesmo herói tombaria pelas costas, numa emboscada. Entre a tomada de Xapuri e o silêncio de Capatará, estende-se o fio invisível de uma história que ainda vive no nome do nosso Município.
A história do Acre não foi escrita apenas em gabinetes, com mapas abertos sobre mesas e tratados redigidos com bicos de pena. Ela também nasceu sob o inverno úmido da floresta, na lama das margens dos rios, no isolamento dos seringais e na determinação de homens que atravessaram distâncias quase impossíveis.
No centro dessa travessia ergue-se José Plácido de Castro.
Gaúcho de São Gabriel, formado na disciplina militar e marcado pela Revolução Federalista, Plácido chegou à Amazônia trazendo consigo as experiências e as desilusões do Sul. No Acre, trabalhou como agrimensor, abrindo caminhos, medindo terras e demarcando propriedades na vasta região do Purus.
Ainda não sabia que, enquanto media o chão, aproximava-se do momento em que seria chamado a defendê-lo.
No início do século XX, a questão acreana atingira um ponto decisivo. Embora pertencente formalmente à Bolívia, o território era ocupado majoritariamente por brasileiros, sobretudo nordestinos que haviam chegado à Amazônia impulsionados pela seca, pela pobreza e pela expansão da economia da borracha.
A situação tornou-se ainda mais grave quando o governo boliviano negociou o arrendamento da região com o chamado Bolivian Syndicate, consórcio de capitais estrangeiros que receberia amplos poderes administrativos e econômicos sobre o Acre.
Para os brasileiros que viviam na região, já submetidos às distâncias, às doenças e ao duro sistema dos seringais, a entrega do território a interesses estrangeiros representava uma ameaça que não poderia ser ignorada.
Foi nesse ambiente que proprietários e lideranças locais procuraram Plácido de Castro. Precisavam de alguém com conhecimento militar, capacidade de comando e coragem suficiente para organizar homens que não eram soldados profissionais, mas seringueiros habituados à floresta e ao sofrimento.
Plácido aceitou.
Deixou para trás os instrumentos de agrimensor e seguiu para as margens do Rio Acre. A partir daquele momento, não mediria apenas propriedades: ajudaria a redefinir os limites de uma pátria.
O movimento foi deflagrado na madrugada de 6 de agosto de 1902. A escolha da data possuía força estratégica e simbólica: naquele dia, a Bolívia comemorava sua independência.
Antes do amanhecer, Plácido de Castro e seu pequeno grupo avançaram sobre Xapuri. A força boliviana foi surpreendida. Segundo a narrativa histórica consagrada, o intendente Juan de Dios Barrientos, ainda atordoado, teria pensado que a movimentação anunciasse o começo das celebrações.
Foi então que Plácido teria pronunciado a frase que atravessaria as gerações:
— Não é festa, senhor intendente. É revolução!
Talvez poucas palavras tenham resumido com tanta precisão o instante em que uma comemoração interrompida se transformou no começo de outra história.
A tomada de Xapuri marcou o início da fase decisiva da Revolução Acreana. A partir dali, Plácido passou a comandar um exército improvável: homens vindos dos seringais, muitos deles nordestinos expulsos de suas terras pela seca e aprisionados na Amazônia pelo sistema de aviamento e pelas dívidas que pareciam nunca terminar.
Eram trabalhadores convertidos em combatentes.
Homens acostumados a sangrar árvores passaram também a defender o território em que haviam enterrado seus sonhos, seus parentes e parte da própria vida.
Ao escrever sobre a presença dos sertanejos na Amazônia, Euclides da Cunha produziu uma das imagens mais belas e dolorosas de nossa formação histórica. Chamou-os de “ressuscitados” que se repatriavam de maneira original e heroica: “dilatando a pátria”.
A expressão parece alcançar exatamente aqueles homens.
Abandonados durante anos nos confins da floresta, foram eles que ajudaram a ampliar as fronteiras do país que quase os esquecera.
A campanha estendeu-se pelos rios e seringais. Seu momento culminante ocorreu no cerco de Puerto Alonso, atual Porto Acre. Ali, os revolucionários enfrentaram a resistência boliviana e as dificuldades impostas pela própria natureza.
Em janeiro de 1903, após meses de combates, a guarnição boliviana rendeu-se. A vitória militar dos acreanos não solucionou imediatamente a disputa internacional, mas modificou para sempre a posição política do Brasil.
A guerra abriu caminho para a diplomacia.
Em 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram o Tratado de Petrópolis. Com a atuação diplomática do Barão do Rio Branco e de Assis Brasil, o Acre foi incorporado ao território brasileiro mediante compensações financeiras, territoriais e outros compromissos assumidos pelo governo do Brasil.
Nos mapas, a questão parecia resolvida.
Na vida de Plácido, porém, outra batalha começava.
O líder que comandara a revolução esperava que os moradores do Acre tivessem participação efetiva na condução de seu próprio destino. O governo federal, contudo, instituiu o Território Federal do Acre, administrado por autoridades nomeadas pelo poder central.
A solução contrariou parte das lideranças locais.
O Acre conquistado pelos homens da floresta passava a ser governado de longe.
Plácido entrou em sucessivos conflitos políticos. O prestígio conquistado na guerra transformara-se também em ameaça para adversários que temiam sua liderança e sua influência sobre a população.
A glória militar começava a projetar uma sombra perigosa.

Em agosto de 1908, Plácido deixou Rio Branco em direção ao seringal Capatará. Durante o caminho, na região do seringal Benfica, caiu em uma emboscada.
Foi atingido pelas costas.
Ferido gravemente, ainda resistiu por alguns dias. Morreu em 11 de agosto de 1908, aos 34 anos.
Relatos históricos atribuem a execução do ataque a Alexandrino José da Silva, antigo integrante das forças comandadas pelo próprio Plácido. Quanto à possível participação de autoridades políticas, especialmente do então prefeito departamental Gabino Besouro, o tema permanece cercado por acusações, depoimentos e controvérsias.
Por essa razão, a história deve ser contada com a prudência que os documentos exigem: existem suspeitas históricas relevantes, mas não se deve transformar em sentença definitiva aquilo que permaneceu envolto em disputas políticas e versões conflitantes.
Há, entretanto, uma verdade que não depende de controvérsia.
Plácido de Castro sobreviveu às batalhas, aos rios, às febres, às armas bolivianas e às incertezas de uma revolução conduzida no interior da floresta. Mas não sobreviveu à emboscada preparada por homens que conheciam seu caminho.
O comandante que ajudou a conquistar o Acre não tombou diante de um exército estrangeiro.
Tombou pelas costas.
E assim se estendeu o fio invisível de sua história: começou na madrugada de Xapuri, quando anunciou que não era festa, mas revolução; atravessou rios, seringais e o cerco de Porto Acre; chegou às mesas diplomáticas de Petrópolis; e terminou, ensanguentado, no caminho silencioso de Capatará.
O homem morreu.
O território permaneceu.
E seu nome, mais tarde entregue ao nosso Município de Plácido de Castro, continua lembrando diariamente a todos nós que certas fronteiras não são traçadas somente pela diplomacia.
Algumas são riscadas na terra pelo sacrifício humano.
Nota do autor
Este texto emprega linguagem histórico-literária. Seus acontecimentos centrais foram reconstruídos com apoio em obras históricas, pesquisas acadêmicas e registros institucionais. Os diálogos preservados pela tradição e os fatos sobre os quais existem versões divergentes foram apresentados com a necessária ressalva histórica.
Fontes consultadas
CASTRO, Genesco de. O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro: excertos históricos. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial. Obra publicada originalmente em 1930, reunindo documentos, relatos e registros relacionados à Revolução Acreana e à trajetória de Plácido de Castro. Biblioteca Digital do Senado Federal.
CUNHA, Euclides da. À margem da história. Porto: Livraria Chardron, 1909. Especialmente a primeira parte, “Na Amazônia — Terra sem História”, que contém a célebre passagem sobre os sertanejos que se repatriavam “dilatando a pátria”.
FIGUEIRÊDO, Thiago Pereira. A questão do Acre: a criação do Território Federal e o fortalecimento do poder da União na Primeira República brasileira (1891–1904). Tese de Doutorado em Direito, Universidade de Brasília, 2024. Estudo sobre a questão acreana, o Tratado de Petrópolis e a criação do Território Federal do Acre. Repositório Institucional da Universidade de Brasília.
ALVES, Flávia Lima e. “O Tratado de Petrópolis: interiorização do conflito de fronteiras”. Revista de Informação Legislativa, Brasília, Senado Federal, ano 42, n. 166, abr./jun. 2005. Revista de Informação Legislativa do Senado Federal.
LIMA, Cláudio de Araújo. Plácido de Castro: um caudilho contra o imperialismo. Estudo biográfico e documental dedicado à trajetória política e militar do líder da Revolução Acreana. Biblioteca Digital de Obras Raras da UFRJ.
PREFEITURA MUNICIPAL DE XAPURI. “6 de agosto: 123 anos do início da Revolução Acreana”. Registro institucional sobre a tomada de Xapuri e o significado histórico da data. Prefeitura Municipal de Xapuri.
Referência histórica local
O nome do Município de Plácido de Castro, onde vivemos e trabalhamos, constitui uma homenagem permanente a José Plácido de Castro. Assim, a lembrança do revolucionário não pertence apenas aos livros: está presente no nome da cidade, na identidade de seus moradores e na memória histórica que o Município carrega todos os dias.