
Ao conversar com uma inteligência artificial, um pai viúvo tenta escrever para a esposa falecida — e acaba encontrando o filho que ainda estava dentro de casa.
— Pai, sente aqui um instante. Quero lhe mostrar uma coisa.
O homem aproximou-se sem entusiasmo. O filho havia deixado o computador sobre a mesa, com uma página aberta e um pequeno sinal luminoso indicando que alguma coisa aguardava.
— É uma inteligência artificial — explicou o rapaz. — O senhor pode falar normalmente. Ela escuta, responde e registra tudo por escrito.
O pai examinou a tela.
— Já existem telas demais no mundo.
— Mas esta é diferente. Ela conversa com o senhor.
— Máquina conversa. O problema é que muita gente deixou de conversar.
O filho sorriu.
— Experimente antes de condenar.
— Eu não condenei a máquina. Estou falando das pessoas. Basta olhar em volta. Tem gente perdendo o sono, adoecendo, deixando o corpo parado e a cabeça inquieta. Há crianças passando tantas horas diante dessas coisas que os olhos começam a preocupar os pais. Algumas dormem tarde, não querem ir para a escola, deixam tarefas incompletas e aparecem com notas cada vez piores.
— Nem todo mundo usa assim, pai.
— Eu sei. A tecnologia não entra sozinha numa casa para roubar a vida de ninguém. O problema é quando entregamos a ela o lugar do sono, da escola, da conversa e de quem está ao nosso lado. O caderno permanece fechado, mas a tela nunca se apaga.
O rapaz permaneceu em silêncio.
— Há famílias inteiras sentadas na mesma sala — continuou o pai —, mas cada pessoa desapareceu dentro do que está assistindo. Os vídeos não terminam nunca, filho. A infância, sim. Os filhos crescem. Os pais envelhecem. E, em algumas casas, o amor fica guardado no congelador, como se alguém pretendesse descongelá-lo depois.
— Talvez esta máquina ajude justamente a encontrar algumas palavras.
— Palavras para quem?
— Para quem o senhor quiser.
O filho ativou o modo de voz.
— Pode falar com ela. Preciso sair por alguns minutos, mas volto logo.
Quando a porta se fechou, o pai permaneceu diante do computador. A tela não exibia vídeos, músicas ou pessoas representando uma felicidade ensaiada. Apenas esperava.
Sobre um móvel próximo havia a fotografia de uma mulher.
Ele olhou para ela. Depois, para a tela.
— Você está me ouvindo?
— Estou. Como posso ajudá-lo?
O homem ajeitou-se na cadeira.
— Meu filho disse que você transforma conversa em texto.
— Posso registrar suas palavras e ajudá-lo a organizá-las.
— Então eu quero escrever uma carta.
— Para quem o senhor deseja escrever?
Ele voltou os olhos para a fotografia.
— Para minha mulher.
— Como gostaria de começar?
— Ainda não sei.
— Pode me contar alguma coisa sobre ela?
— Ela morreu há alguns anos.
A resposta não veio depressa demais.
— Sinto muito. O senhor deseja escrever sobre a vida que tiveram juntos?
— Não. Quero contar o que aconteceu depois que ela partiu.
— Posso ajudá-lo a fazer isso. Embora eu não possa entregar a carta.
— Eu sei. Não sou ingênuo. Máquina nenhuma conhece o endereço do céu.
— Então qual será o destino dela?
O pai respirou fundo.
— Talvez destino nenhum. Talvez eu apenas não queira morrer deixando tudo preso dentro de mim.
As primeiras palavras começaram a aparecer na tela.
— O que sua esposa gostaria de saber primeiro?
— Sobre nosso filho.
— O que aconteceu com ele?
O rosto do homem se iluminou.
— Cresceu. Está estudando Medicina ali na Vila Evo Morales, do outro lado da fronteira.
— Esse era um sonho dele?
— Era dela também. Quando ele ainda era menino, sua mãe dizia que um dia o veria de jaleco branco. Eu ria. Naquele tempo, o sonho parecia maior do que nossa casa, maior do que nosso dinheiro e maior até do que a distância que ele teria de atravessar.
— E agora o sonho está se realizando?
A luz que havia surgido no rosto do pai diminuiu.
— Está tentando.
— Por que o senhor diz “tentando”?
— Porque meu filho pensa em abandonar o curso.
Naquele momento, o rapaz retornava. Antes de abrir completamente a porta, ouviu a resposta e permaneceu do lado de fora.
— Ele lhe contou isso? — perguntou a inteligência artificial.
— Não.
— Como o senhor descobriu?
— Pai não precisa ouvir tudo para perceber. Há dias ele chega diferente. Guarda depressa os livros, evita falar das aulas e começou a perguntar quanto gasto com comida, remédios e energia. Ontem encontrei o jaleco dobrado dentro de uma mala.
— Por que ele deseja abandonar Medicina?
— Para trabalhar e cuidar de mim. Pensa que estou ficando velho e que já sacrifiquei demais por ele.
— E o que gostaria de dizer ao seu filho?
O homem baixou a cabeça.
— Se eu conseguisse dizer olhando para ele, não estaria falando com você.
Houve uma breve pausa.
— Então diga primeiro à mãe dele.
O pai contemplou a fotografia.
— Escreva assim: “Minha querida, nosso menino cresceu. Todos os dias, atravessa a fronteira levando livros, cadernos e um jaleco dentro da mochila. Na Vila Evo Morales, há estudantes que vieram de muito longe. Alguns contam o dinheiro antes de cada compra. Outros telefonam para casa e dizem que está tudo bem, porque sabem que, do outro lado da ligação, existe um pai ou uma mãe que já fez sacrifícios demais.”
A inteligência artificial registrava sua voz.
— Há alguma lembrança de Plácido de Castro que sua esposa reconheceria imediatamente?
O homem sorriu.
— A enorme primavera no centro da cidade.
— Uma estação do ano?
— Não. Uma planta. Buganvília é o nome que alguns dão, mas nós sempre a chamamos de primavera. Ela fica do lado de fora de uma antiga residência, como se estivesse ali para receber quem chega e cumprimentar quem passa. Quando floresce, abre toda a sua beleza para o céu e para o sol. Minha mulher sempre diminuía o passo para contemplá-la.
— Ela desejava uma planta igual?
— Desejava. Eu prometi que pediria um galho para fazermos uma muda em nosso quintal.
— O senhor pediu?
O sorriso desapareceu.
— Não. A gente pensa que sempre haverá outra passagem pela mesma rua, outra floração e outro dia para bater à porta. Depois ela morreu, e a primavera continuou ali, recebendo pessoas e florescendo ao sol. E a promessa nunca voltou para casa.
— Ainda deseja aquela muda?
— Agora, mais do que antes.
— Quer escrever isso na carta?
— Quero. Registre: “A primavera daquela residência ainda floresce no centro da cidade. Demorei demais para cumprir o que prometi, mas ainda irei buscar um galho. Se ele criar raízes em nosso quintal, talvez, quando as flores se abrirem, eu tenha a impressão de que você diminuiu o passo para contemplá-las outra vez.”
Do lado de fora, o filho escutava sem coragem de interromper.
— Que outro lugar despertaria uma lembrança entre vocês? — perguntou a inteligência artificial.
— O Cristo no mirante. Ela dizia que, vistos lá do alto, alguns problemas pareciam menores. Não porque deixassem de doer, mas porque a gente se lembrava de que o mundo continuava depois deles.
— Vocês fizeram alguma promessa naquele lugar?
— Fizemos.
— Qual?
O pai demorou a responder.
— Ver nosso filho formado.
A frase atravessou a porta entreaberta.
— Deseja colocar essa promessa na carta?
— Escreva: “O Cristo continua no mirante, recebendo os pedidos de quem sobe até lá. O rio Abunã continua levando suas águas, como se conhecesse todas as partidas e todos os regressos desta terra de fronteira. E a nossa promessa ainda não morreu. Está atravessando para a Bolívia todos os dias, dentro da mochila de nosso filho.”
— O senhor acredita que cumpriu sua parte como pai?
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
— Um pai nunca sabe. Depois que ela partiu, precisei tomar sozinho decisões que deveriam ser nossas. Houve noites em que eu não sabia se estava educando corretamente ou apenas tentando impedir que a casa desabasse.
— Seu filho sabe disso?
— Não.
— Por que nunca contou?
— Porque filho não precisa carregar todos os medos do pai.
— Mas o senhor está carregando os medos dele.
O homem ficou calado. Aquela observação simples encontrou um lugar que ele mantinha fechado.
— Talvez seja esse o nosso erro — reconheceu. — Nós dois estamos sofrendo para proteger um ao outro, mas nenhum encontra coragem para conversar.
— O que diria se seu filho estivesse diante do senhor agora?
O pai ergueu o rosto.
— Diria que não o criei para ficar preso na margem. Diria que estou envelhecendo, mas meu envelhecimento não pode ser a última dificuldade colocada no caminho dele. Sua mãe e eu lutamos para que atravessasse.
A porta se abriu.

— Então diga, pai.
O homem se voltou lentamente. O filho estava ali, com os olhos molhados.
— Você ouviu?
— Ouvi o que o senhor nunca tinha me contado.
— E eu descobri o que você pretendia esconder.
O rapaz se aproximou.
— Eu ia abandonar o curso para trabalhar e cuidar do senhor.
— E eu estava escrevendo para sua mãe porque não sabia como impedir você.
A inteligência artificial perguntou:
— Desejam que eu continue registrando?
Pai e filho olharam para a tela. Depois, finalmente, olharam um para o outro.
— Continue — respondeu o pai. — A carta ainda não terminou.
— O que devo escrever agora?
O homem segurou a mão do filho.
— Escreva: “Minha querida, achei que esta carta não encontraria o endereço do céu. Mas ela chegou aonde precisava chegar.”
Naquela noite, a tela não roubou o sono, não substituiu a família nem aprisionou ninguém dentro de um mundo de imagens intermináveis.
A inteligência artificial não falou pela esposa falecida. Não inventou respostas, não prometeu milagres e não fingiu conhecer o que existe depois da vida.
Apenas registrou a voz de um pai e abriu passagem para uma conversa adiada.
Em tantos lares, as telas faziam a vida passar enquanto o amor permanecia esquecido no congelador. Naquela casa, porém, uma delas fizera o contrário:
devolvera duas pessoas uma à outra.
Na manhã seguinte, pai e filho caminharam até o centro da cidade.
A primavera estava do lado de fora da residência, exatamente como o homem a guardara na memória: exuberante, aberta ao céu e coberta de flores que pareciam iluminar aquela parte da rua.
Durante anos, estivera ali para receber quem chegava.

Naquele dia, o pai teve a estranha impressão de que florescera para recebê-lo.
Uma senhora veio atendê-los.
— Em que posso ajudá-los?
— Vim pedir um galho dessa primavera. Há muitos anos, prometi à minha mulher que plantaríamos uma igual em nosso quintal. Demorei tanto que ela partiu antes.
— Como era o nome dela?
Quando o homem respondeu, a senhora levou a mão ao peito.
— Então era sua esposa...
— A senhora a conheceu?
— Ela esteve aqui certa vez. Pediu uma muda desta mesma primavera. Disse que voltaria com o marido para buscá-la.
O pai sentiu as pernas perderem a firmeza.
— Ela nunca me contou.
— Talvez quisesse fazer uma surpresa. Eu preparei a muda, mas ela não voltou. Algum tempo depois, soube que havia falecido. Não tive coragem de jogar a planta fora.
A senhora pediu que a acompanhassem até um canto do quintal. Ali havia outra primavera, nascida de um galho da planta antiga.
— Esta veio da muda que preparei para ela. Plantei-a aqui e deixei que crescesse.
Próximo ao chão, um de seus ramos havia tocado a terra e criado raízes. Dele nascia uma planta jovem, pronta para ser separada.
— Vejam — disse a senhora. — Há poucos dias percebi que este galho havia enraizado. Se ainda a quiser, pode levá-la.
O pai ajoelhou-se diante da pequena planta.
Não era apenas uma muda retirada de uma primavera conhecida da cidade. Era descendente do galho que sua esposa escolhera — a continuação de uma promessa que os dois acreditavam ter perdido.
O filho ajudou a retirar a planta com cuidado.
Na volta para casa, carregaram a muda entre os dois, como se conduzissem alguma coisa viva através dos anos.
Plantaram-na no quintal, num lugar onde receberia o sol da manhã.
O pai não chamou aquilo de milagre. Homem vivido sabia que nem tudo precisava receber um nome.
Apenas tocou delicadamente uma de suas folhas e falou:
— Você veio buscar a primavera antes de mim...
O filho permaneceu ao seu lado.
A inteligência artificial não encontrara o endereço do céu. Mas, no coração de Plácido de Castro, uma planta havia guardado durante anos a resposta que nenhuma máquina poderia oferecer.
E, naquela casa, depois de tanto silêncio, o amor finalmente saiu do congelador.
Criou raízes.
E voltou a florescer.
NOTA DO AUTOR
Esta narrativa nasceu da imaginação do autor. Seus personagens e acontecimentos são ficcionais, embora carreguem lugares, sentimentos e esperanças reconhecíveis por todos nós. Qualquer semelhança com pessoas ou situações reais será mera coincidência.
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