Geral Pertencimento
O FILHO QUE O FOTÓGRAFO ESQUECEU
Quando o retratista contou apenas os filhos presentes, o pai percebeu imediatamente que faltava um.
10/08/2026 20h49
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira

Quando o retratista perguntou quantos filhos havia naquela casa, contaram apenas os que estavam presentes. O pai, porém, percebeu imediatamente que faltava um.

 

O retrato permaneceu por muitos anos na parede principal de uma velha casa de madeira, em terras que mais tarde fariam parte do município de Plácido de Castro.

Era grande, cercado por uma moldura escura, trabalhada à mão. No centro, sentados, apareciam o pai e a mãe. Ao redor deles, sete filhos: os rapazes de camisa fechada até o pescoço, as moças com os cabelos cuidadosamente presos e as crianças vestidas com a melhor roupa que possuíam.

Na extremidade direita, porém, havia um oitavo rapaz.

Ele parecia não combinar inteiramente com os demais.

Enquanto os irmãos estavam arrumados para a solenidade, o jovem usava roupa simples e um chapéu de palha gasto nas bordas. Seu rosto também apresentava uma luz diferente, como se tivesse vindo de outro dia, de outro lugar — talvez até de outra família.

Era justamente por isso que todos perguntavam:

— Quem é o rapaz do chapéu?

Os mais velhos respondiam apenas:

— É Anselmo.

Quando alguém insistia em saber por que ele aparecia diferente, explicavam que o retrato fora preparado por um artista que percorria os seringais e as pequenas localidades, reunindo famílias em grandes imagens.

Algumas pessoas nunca haviam posado juntas. O retratista recolhia fotografias pequenas, muitas vezes desbotadas, ampliava os rostos, retocava as roupas e aproximava aqueles que a distância ou a morte haviam separado.

Entretanto, ninguém explicava por que Anselmo precisara ser acrescentado.

A resposta somente apareceu muitos anos depois, quando a moldura começou a ceder e o retrato foi retirado da parede para ser restaurado.

Atrás dele encontraram um envelope amarelado. Dentro, havia uma pequena fotografia de Anselmo usando o mesmo chapéu de palha e um pedaço de papel com poucas palavras, escritas pela mão do velho pai:

“Este é o filho que faltou no primeiro retrato.”

Aquela frase devolveu à família uma história quase esquecida.

Anselmo chegara à casa ainda menino.

Ninguém sabia ao certo sua idade. A mãe havia morrido durante uma doença que alcançara várias colocações, e o pai saíra em busca de trabalho, prometendo voltar quando tivesse condições de criá-lo.

Nunca voltou.

Nos primeiros dias, Anselmo dormia num canto da sala, sobre uma esteira. Falava pouco, comia devagar e conservava junto ao peito uma pequena sacola com tudo o que possuía.

A dona da casa mandou que preparassem um lugar para ele entre os outros meninos.

— Até quando ele vai ficar? — perguntou uma das crianças.

— Até o pai voltar — respondeu ela.

Vieram as chuvas, o verão, outra estação de corte e novas enchentes nos caminhos.

O pai não voltou.

Anselmo cresceu naquela casa. Aprendeu a buscar água, carregar lenha, cuidar das pequenas plantações e percorrer os varadouros sem se perder.

Recebia comida, repreensão e trabalho como os demais.

Quando as crianças adoeciam, era a mesma mulher que passava a noite ao lado das redes. Quando algum deles fazia travessura, era a voz do mesmo homem que ecoava no terreiro.

Anselmo começou chamando-os de senhor e senhora.

Depois, sem que ninguém soubesse em qual dia isso aconteceu, passou a chamá-los de pai e mãe.

Ela nunca o corrigiu.

Ele também não.

Entre os irmãos, entretanto, a palavra nem sempre vinha inteira. Quando queriam explicar sua presença a algum visitante, diziam:

— Anselmo chegou depois.

O pai ouvia e permanecia calado. A mãe, porém, certa vez perguntou:

— E depois de quanto tempo alguém deixa de ser o que chegou depois e passa a ser apenas um de nós?

Ninguém respondeu.

O tempo passou. Os filhos mais velhos começaram a deixar a casa. Uns seguiram para outras colocações; outros buscaram serviço mais perto da pequena vila.

Anselmo também partiu, já rapaz, para trabalhar num seringal mais distante.

Antes de sair, ganhou do pai um chapéu de palha.

Não era novo nem bonito. Fora comprado de um regatão e já apresentava uma dobra na aba. Anselmo, contudo, passou a usá-lo em todas as viagens.

Algum tempo depois, apareceu na região um retratista vindo de Rio Branco. Carregava uma máquina fotográfica, um pano de fundo e algumas amostras de grandes retratos de família.

A mãe se encantou.

Nunca possuíra uma imagem com todos os filhos. Convenceram os que moravam mais perto a retornar no domingo seguinte. As roupas foram lavadas, os cabelos penteados e até um par de sapatos circulou entre dois irmãos, porque ninguém observaria os pés de todos ao mesmo tempo.

Anselmo não foi avisado.

Não por decisão dos pais. A mensagem deveria ter seguido com um homem que passaria pela colocação onde ele trabalhava, mas o viajante mudou de caminho.

No domingo, o retratista posicionou o casal no centro e distribuiu os filhos ao redor.

— Quantos são? — perguntou, enquanto ajustava a máquina.

Um dos rapazes contou rapidamente:

— Sete.

O pai olhou para cada rosto.

Contou uma vez.

Depois tornou a contar.

— Oito — corrigiu.

O retratista conferiu as pessoas.

— Aqui há sete filhos.

— Aqui estão sete — respondeu o pai. — Mas nós temos oito.

Alguém explicou que Anselmo não pudera comparecer. Acrescentou, talvez para facilitar:

— Ele chegou à nossa casa ainda menino.

O velho virou o rosto lentamente.

— Eu não perguntei quando ele chegou. Estou dizendo quantos filhos há nesta casa.

O retratista percebeu o desconforto e tentou resolver:

— Se houver alguma fotografia dele, posso acrescentá-lo depois. Faço isso com famílias que não conseguem reunir todos no mesmo dia.

A mãe procurou entre os poucos papéis guardados numa caixa. Encontrou apenas uma pequena fotografia tirada meses antes, quando Anselmo passara pela vila. Nela, ele aparecia com a roupa do trabalho e o chapéu de palha torto sobre a cabeça.

O retratista examinou a imagem.

— Posso melhorar a roupa — ofereceu. — Coloco uma camisa bonita e retiro o chapéu. Assim ele ficará igual aos outros.

O pai tomou a fotografia nas mãos.

Observou por alguns instantes aquele rapaz que não nascera em sua casa, mas crescera dentro dela.

— Não retire nada.

— O chapéu está velho — argumentou o homem.

— O chapéu fui eu que lhe dei.

— Mas ele ficará diferente dos irmãos.

O pai devolveu a fotografia.

— Quero que coloque meu filho, não que invente outro rapaz para combinar conosco.

O retratista não insistiu.

Meses depois, quando o grande quadro ficou pronto, Anselmo apareceu na extremidade direita, incorporado ao grupo a partir daquela pequena fotografia.

Os demais estavam como haviam se preparado para parecer.

Anselmo estava como realmente era.

Quando retornou para uma visita, encontrou o quadro pendurado na sala. Ficou diante dele por muito tempo, percorrendo com os olhos cada rosto.

— Colocaram até eu — disse, quase envergonhado.

A mãe estranhou:

— E por que não colocariam?

— Eu não estava aqui naquele dia.

O pai, sentado próximo à janela, respondeu:

— Não estar no dia da fotografia é uma coisa. Não fazer parte da família é outra.

Anselmo aproximou-se do quadro e tocou levemente a madeira da moldura.

— Podiam ter tirado o chapéu.

— Eu não deixei — disse o pai.

— Por quê?

O velho sorriu.

— Para você saber que não precisamos mudar quem você era antes de colocá-lo ao nosso lado.

 

 

Anselmo abaixou a cabeça. Talvez para esconder os olhos, talvez por ainda não saber receber certas palavras.

Depois daquele dia, sempre que voltava, parava alguns instantes diante do retrato.

Os anos levaram os pais, espalharam os irmãos e envelheceram a casa. Anselmo também seguiu seu caminho. Constituiu família em outra região e raramente conseguiu retornar.

O quadro, contudo, permaneceu.

Algumas gerações ainda sabiam que Anselmo chegara àquela casa quando menino. Outras sequer conheciam a identidade do rapaz do chapéu. Houve quem acreditasse que ele aparecia diferente porque ocupava um lugar menor naquela família.

Somente o bilhete encontrado atrás da moldura revelou a verdade.

Anselmo não estava no retrato por concessão, caridade ou favor. Estava porque, quando todos viram sete filhos diante da máquina, o pai contou oito.

O restaurador limpou a imagem, fortaleceu a tela e preservou cuidadosamente o chapéu de palha. Quando o quadro retornou à parede, o rapaz continuava diferente dos demais.

Mas já ninguém poderia dizer que fora esquecido.

O fotógrafo o esquecera porque não o vira.

Os irmãos o esqueceram porque contaram somente os que estavam presentes.

O pai, porém, contou também aquele que fazia falta.

E talvez seja essa uma das formas mais verdadeiras de pertencer a uma família: ninguém precisar explicar de onde veio para que sua ausência seja imediatamente percebida.

 

Nota do autor: Esta narrativa é ficcional, inspirada nos antigos retratos de família e nos vínculos de convivência formados no interior acreano.