Geral Dignidade
Prazo de validade
O etarismo não espera a velhice: desqualifica os jovens, antecipa o envelhecimento das mulheres e transforma experiência em motivo de exclusão.
20/08/2026 19h44
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira

O etarismo não espera necessariamente a velhice: às vezes considera alguém jovem demais para ser ouvido e, pouco tempo depois, velho demais para receber uma oportunidade.

 

O anúncio não mencionava idade.

Dizia apenas que a empresa procurava alguém dinâmico, comunicativo, experiente e disposto a aprender. No rodapé, uma frase convidativa:

— Venha construir o futuro conosco.

Naquela segunda-feira, três pessoas chegaram para a entrevista.

A primeira foi Gabriel, de 22 anos. Trazia debaixo do braço um currículo pequeno, mas bem organizado. Havia concluído um curso técnico, conhecia programas de computador e aceitava aprender o que ainda não soubesse.

O entrevistador passou os olhos pelo papel e perguntou:

— Você já trabalhou em alguma empresa grande?

— Ainda não. Estou procurando a primeira oportunidade.

— Compreendo. Mas precisamos de alguém com mais experiência.

Gabriel saiu sem discutir. Do lado de fora, dobrou cuidadosamente o currículo. Para conseguir experiência, precisava trabalhar. Para trabalhar, exigiam que já tivesse experiência.

A segunda candidata foi Helena, de 46 anos.

Seu currículo ocupava duas páginas. Trabalhara muitos anos com atendimento ao público, administração e vendas. Conhecera o tempo das fichas preenchidas à mão, dos telefones fixos e das máquinas de calcular. Depois aprendera a lidar com computadores, planilhas, correio eletrônico, aplicativos, pagamentos digitais e tudo o mais que chegara sem pedir licença.

— A senhora tem bastante experiência — reconheceu o entrevistador.

Helena sorriu.

— E continuo aprendendo.

Ele ajeitou os papéis sobre a mesa.

— O problema é que estamos formando uma equipe com um perfil mais jovem.

Não havia acusação naquela frase. Não havia ofensa aberta. Nem mesmo a palavra “idade” fora pronunciada. Ainda assim, Helena compreendeu.

Durante muitos anos, disseram-lhe que precisava adquirir experiência. Agora que a possuía, a experiência começava a contar contra ela.

— Minha competência mudou depois que o senhor viu minha data de nascimento? — perguntou.

 

 

O entrevistador ficou em silêncio.

Helena recolheu os documentos e saiu. Na porta, encontrou Gabriel sentado num banco. Ele aguardava o ônibus e ainda segurava o currículo dobrado.

— Não tenho experiência suficiente — contou o rapaz.

— Eu tenho demais — respondeu ela.

Os dois riram, mas era um riso sem alegria.

O terceiro candidato chamava-se Anselmo e tinha 63 anos. Chegou com antecedência, camisa bem passada e uma pequena pasta nas mãos.

— O senhor está aposentado? — perguntou o entrevistador antes mesmo de examinar seus documentos.

— Estou.

— Então, por que deseja trabalhar?

Anselmo pensou alguns segundos. Não por falta de resposta, mas por estranhar a pergunta.

— Pelo mesmo motivo das outras pessoas. Tenho necessidades, capacidade e planos.

O entrevistador explicou que a empresa utilizava um sistema moderno. Anselmo pediu que lhe mostrassem. Recebeu algumas orientações e, poucos minutos depois, já conseguia realizar a tarefa proposta.

Mesmo assim, ouviu que a empresa procurava alguém em quem pudesse “investir a longo prazo”.

— O senhor sabe quanto tempo ficarei aqui? — perguntou Anselmo.

— Não.

— E sabe quanto tempo ficará qualquer candidato mais novo?

Novamente, não houve resposta.

Anselmo guardou os documentos e encontrou Helena e Gabriel perto da esquina. Antes que dissessem qualquer coisa, anunciou:

— Parece que também tenho a idade errada.

Naquela empresa, Gabriel era jovem demais para começar. Helena já não era suficientemente jovem para continuar. Anselmo era considerado velho demais para permanecer.

Nenhum dos três sabia qual era a idade certa.

No fim da tarde, o responsável pelas entrevistas levou os currículos ao chefe. Disse que Helena reunia todas as qualificações e que Anselmo demonstrara facilidade com o sistema. Também lembrou que Gabriel poderia ser treinado.

O chefe balançou a cabeça.

— Você ainda é muito novo para compreender o perfil que procuramos.

Foi então que o entrevistador percebeu: o preconceito que usara contra os candidatos acabava de sentar-se diante dele.

Na manhã seguinte, o anúncio voltou a aparecer:

— Venha construir o futuro conosco.

A vaga continuava aberta.

Não por falta de pessoas capacitadas, mas porque a empresa procurava alguém com experiência, porém não tão experiente; jovem, porém não tão jovem; maduro, porém sem aparentar maturidade.

Procurava uma idade perfeita que talvez nunca tivesse existido.

Esse preconceito tem nome: etarismo. Ele surge quando a idade deixa de ser apenas uma informação e passa a determinar, antecipadamente, o que alguém pode aprender, produzir, compreender, desejar ou realizar.

É verdade que o tempo modifica o corpo, as necessidades e algumas capacidades. Mas pessoas da mesma idade não são iguais. Há jovens preparados e despreparados, assim como há adultos e idosos em ambas as condições. Competência precisa ser avaliada; idade não pode servir como sentença pronunciada antes da oportunidade.

Produtos possuem prazo de validade.

Pessoas, não.

E talvez aquilo que realmente tenha envelhecido — e já devesse ter sido retirado de circulação — seja o preconceito que insiste em medir o valor de uma vida pela data impressa em um documento.

 

Nota do autor: Os personagens, a empresa e todas as situações desta crônica são ficcionais. A narrativa não reproduz nem se refere a qualquer caso concreto. Foi construída para refletir sobre comportamentos que podem atingir pessoas em diferentes fases da vida.

Informação complementar: A Organização Mundial da Saúde define o etarismo como os estereótipos — como pensamos —, os preconceitos — como sentimos — e as discriminações — como agimos — baseados na idade. O fenômeno pode atingir pessoas de todas as idades, embora tenha consequências especialmente graves para a população idosa. OMS — Idadismo

No Brasil, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% da população, em 2000, para 15,6%, em 2023, e poderá chegar a 37,8% em 2070. IBGE — Projeções da população

A legislação brasileira também protege a pessoa idosa contra a discriminação no trabalho, especialmente nos artigos 26 e 27 do Estatuto da Pessoa Idosa.