
Um crime ocorrido em março de 2020, em Brasilândia, no Mato Grosso do Sul, chocou o país pela violência praticada contra uma criança e pela circunstância que envolveu a morte. Gabrielly Magalhães de Souza, de apenas 10 anos, foi assassinada pela própria mãe depois de revelar que vinha sofrendo abusos sexuais praticados pelo padrasto.
Segundo as investigações da Polícia Civil, Gabrielly já havia relatado a pessoas próximas que era vítima de violência sexual. O caso chegou a ser comentado pela menina com uma colega de escola e, posteriormente, ela teria contado à própria mãe sobre os abusos. A apuração apontou que a criança tinha medo das consequências de revelar o que acontecia dentro de casa.
O crime aconteceu em 21 de março de 2020. Conforme a investigação, Emileide Magalhães levou a filha para uma área isolada nos arredores do município e a estrangulou utilizando um fio. Gabrielly ainda estava viva quando foi colocada em uma cova e coberta com terra. A perícia apontou que a morte ocorreu por asfixia.
O irmão da vítima, então com 13 anos, também acabou envolvido na ocorrência. Segundo os relatos apresentados durante a investigação, o adolescente teria sido obrigado pela mãe a participar da ocultação do corpo. O caso ganhou ainda mais repercussão depois que a polícia tomou conhecimento de que a criança teria pedido socorro enquanto era enterrada.
Após o assassinato, Emileide chegou a procurar a polícia e registrar uma ocorrência comunicando o suposto desaparecimento da filha. Mais tarde, porém, entrou em contato com a Polícia Militar e confessou o crime, indicando o local onde havia deixado o corpo. Gabrielly foi encontrada enterrada de cabeça para baixo, em uma área próxima ao lixão de Brasilândia.
As investigações também avançaram sobre as denúncias de violência sexual. O padrasto, identificado como André Luiz Ferreira Piauí, foi preso e posteriormente condenado pelos abusos praticados contra a enteada. Em decisão posterior, a pena dele foi elevada para 20 anos, 6 meses e 15 dias de reclusão, após recurso do Ministério Público.
O caso chegou ao Tribunal do Júri em janeiro de 2022. O julgamento de Emileide ocorreu no Fórum de Três Lagoas, após a repercussão do crime em Brasilândia. Durante a sessão, a acusada admitiu ter colocado um fio no pescoço da filha e afirmou que acreditava que a menina já estivesse morta quando a enterrou. A versão, entretanto, não afastou as conclusões apresentadas pela perícia e pela acusação.
Por decisão do Conselho de Sentença, Emileide foi condenada a 39 anos, 8 meses e 4 dias de prisão, em regime inicialmente fechado. A condenação reuniu homicídio quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver, comunicação falsa de crime e corrupção de menores.
A história de Gabrielly também deixou uma marca permanente em Brasilândia. Em 2021, o município passou a denominar o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) como CREAS Gabriele Magalhães de Souza, em homenagem à menina e como forma de reforçar a conscientização sobre a violência contra crianças e adolescentes.
Mais do que um crime que repercutiu nacionalmente, a morte de Gabrielly tornou-se um símbolo da necessidade de atenção aos sinais de violência contra crianças. A trajetória da menina terminou de forma brutal justamente depois de ela tentar revelar os abusos que sofria, reforçando a importância de que denúncias de violência sexual sejam levadas a sério e encaminhadas imediatamente às autoridades competentes.