
Uma técnica de laboratório do Hospital Dr. Manoel Marinho Monte, em Plácido de Castro, interior do Acre, denuncia sofrer assédio moral há cerca de três anos e afirma que o problema continuou mesmo após uma recomendação do Ministério Público do Acre (MP-AC) para afastamento farmacêutico bioquímico J. W. de M. M.
Segundo a profissional, que pediu para não ser identificada, os episódios contribuíram para o desenvolvimento de depressão, ansiedade generalizada e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Ao g1, a servidora relatou que trabalha na unidade desde 2014 e que os episódios começaram em 2023. O farmacêutico bioquímico J. W. de M. M., que já foi alvo de uma recomendação do MP-AC para afastamento do cargo em razão de denúncias semelhantes, é apontado por ela como o responsável pela perseguição.
"Eu suportei isso por anos de sofrimento. Ele me acusava alegando que o aumento da demanda acontecia apenas porque eu cadastrava os pacientes. Na hora de cobrar, alterava o tom de voz e me deixava muito triste. Às vezes, eu também aumentava o meu tom de voz, exigindo que ele me respeitasse", relembrou.
O farmacêutico chegou a ter o afastamento preventivo determinado e também foi alvo de um processo administrativo disciplinar (PAD), instaurado em julho deste ano para apurar as denúncias. Ao g1, J. W. de M. M. negou as acusações e atribuiu a uma possível perseguição interna.
"Essas falsas denúncias aconteceram após eu ter procurado a direção do hospital e o prefeito para denunciar o plantão do laboratório que não era realizado, mas que pessoas recebiam como estivessem trabalhando e isso acontecia com permissão do hospital", disse. (Veja mais abaixo)
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) informou que, como medida administrativa, os profissionais passaram a atuar em escalas e pavilhões distintos, a fim de evitar contato direto e preservar o ambiente de trabalho. (Veja a nota completa abaixo)
Registros e denúncias
Ainda de acordo com a servidora, uma enfermeira da unidade registrou uma notificação de violência após perceber seu abalo emocional, o que a incentivou a formalizar a denúncia.
"Ela disse: 'Isso é uma violência que está acontecendo com você. Estou percebendo que está visivelmente abalada e está doente, você não está bem'. Aí eu tive um choque de realidade e fiz um boletim de ocorrência", relatou.
A técnica informou que registrou ocorrência policial após o episódio, que fez novas denúncias em 2025 e novamente neste mês. Segundo ela, as perseguições continuaram mesmo após os registros.
A servidora afirma possuir áudios de reuniões, documentos médicos e testemunhas que corroborariam os fatos relatados. Entre as situações denunciadas, ela cita constrangimentos, perseguições e episódios de difamação ocorridos ao longo dos últimos anos.
"A primeira vez que ele gritou comigo já mandou eu tomar naquele lugar, na frente de outra técnica de laboratório e de outras pessoas que estavam no hospital. Eu comecei a chorar. Foi nesse clima tóxico que fui desenvolvendo todo esse transtorno", disse.
Efeitos na saúde
Ainda conforme a técnica de laboratório, após os episódios ela começou a apresentar problemas de saúde mental e foi diagnosticada no último dia 15 de agosto com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), além da ansiedade e depressão.
Devido ao agravamento do quadro de saúde, ela afirma que faz acompanhamento no Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac) e utiliza medicação controlada. Preocupada com a situação, ela ainda entrou com uma perícia médica da AcrePrevidência, mas segue no aguardo do resultado.
"Cheguei a passar mal, tive taquicardia, sentia um aperto no peito e chorava por tudo, pois tudo me lembrava esses episódios traumáticos. Cheguei a pegar afastamento mas quando voltava, a situação sempre voltava com esse farmacêutico para comigo", declarou.
A mulher declarou que não busca privilégios, mas que o caso seja investigado e que sejam adotadas medidas para garantir proteção no ambiente de trabalho. Ela também pede que a situação seja utilizada para dar visibilidade a outros servidores que passam por situações semelhantes.
Segundo a técnica, os episódios afetaram diretamente sua saúde mental. Ela afirma ter recebido diagnóstico de ansiedade generalizada e depressão e, mais recentemente, em 15 de agosto deste ano, de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
A servidora relata que faz acompanhamento no Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac), utiliza medicação controlada e aguarda o resultado de uma perícia médica solicitada à AcrePrevidência.
"Cheguei a passar mal, tive taquicardia, sentia um aperto no peito e chorava por tudo, porque tudo me lembrava esses episódios traumáticos. Cheguei a me afastar do trabalho, mas quando retornava os problemas reapareciam", afirmou.
Apesar de ter sido remanejada para outro setor, a técnica diz que ainda encontra o colega nos corredores, no refeitório e em outros espaços da unidade, situação que, segundo ela, contribui para o agravamento do quadro emocional.
Segundo a servidora, embora o MP-AC tenha recomendado o afastamento do bioquímico, a medida não foi cumprida pela Sesacre. Ela afirma que, em vez disso, foi transferida para outro setor.
Como começou o conflito
A técnica conta que já era servidora concursada quando passou a auxiliar o farmacêutico em algumas atividades do laboratório. Um dos episódios que mais a marcaram, segundo ela, ocorreu durante uma discussão sobre a análise de um exame.
Ela relata que os dois divergiram sobre a grafia de um termo técnico durante uma conversa de trabalho.
"Eu falei: 'Acho que é com cedilha'. Aí ele disse: 'Será que é com cedilha mesmo? Eu acho que é com dois esses'. Eu respondi: 'Então, você que sabe, porque você é professor e eu não sou, mas escrevo com cedilha'. Ele me xingou, comecei a chorar, fiquei muito nervosa e saí da sala", contou.
Após o episódio, segundo a servidora, o colega chegou a pedir desculpas. Mesmo assim, ela diz que passou a temê-lo e que a situação piorou quando ele assumiu a chefia do laboratório.
"Eu perdoei, mas fiquei com medo dele. Depois ele passou a ser chefe do laboratório e ficou pior. Começou a impor as ordens dele e foi o período em que mais sofremos, eu e outra servidora", afirmou.
Outro motivo de conflito, segundo a técnica, envolvia o atendimento aos pacientes. Ela relata que os profissionais distribuíam fichas de acordo com a ordem de chegada, observando prioridades legais, mas que a dinâmica mudou após o colega assumir o comando do setor.
"Antes ele aceitava numa boa. Depois que passou a ser chefe, começou a limitar. Não deixava a gente acrescentar ninguém. Se precisasse, ele ficava muito irritado e queria que falasse diretamente com ele. Aquilo foi virando uma bola de neve", disse.
O que diz o farmacêutico
J. W. de M. M. afirmou que é vítima de perseguição no ambiente de trabalho. Segundo ele, a escala de plantões noturnos não era divulgada no mural do hospital e não havia registro de produtividade durante esses períodos.
O servidor disse ainda que era acionado eventualmente para atender exames de urgência e que considerava ter essa responsabilidade em razão da decisão administrativa que havia recebido anteriormente.
O suspeito também contestou o funcionamento dos plantões. "Há diferenças entre as escalas e as atividades de alguns setores do hospital. Sobre a denúncia de assédio, na realidade, eu que sofro perseguição, pois ela distribui fichas, aumenta a demanda do laboratório e provoca sobrecarga" diz.
J. W. de M. M. também criticou a forma como o caso vem sendo divulgado e defendeu uma apuração presencial no hospital. “O hospital de Plácido não é nenhuma novidade com esse tipo de desvios. É preciso uma investigação aqui para verificar in loco pois não está sendo fácil para mim", destacou.
O homem afirmou ainda que a divulgação da recomendação do MP-AC fez com que ele tivesse crise de ansidade. "A publicação dessa recomendação foi com intuito de terrorismo psicológico e desde então vivo em tormento e já sofri muito, pois me trouxe danos psicológicos", declarou.
Além disso, o farmacêutico levantou hipóteses sobre possíveis motivações pessoais para os conflitos, mas não apresentou comprovação dessas afirmações. "Não sou psicólogo, mas essa pessoa acusadora possui esse perfil e é necessário ela passar por uma junta médica para avaliação", afirma.
O profissional afirmou por fim, que o hospital teria se aproveitado do conflito entre os dois. "Ela vem infernizando minha vida há muito tempo, talvez por ela carregar uma frustração de não ser analista no laboratório e o grupo da direção do hospital aproveitou da situação", declarou.
Nota da Sesacre
A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) informa que a situação envolvendo os servidores do Hospital Dr. Manoel Marinho Monte, em Plácido de Castro, já havia sido analisada e acompanhada em conjunto com o Ministério Público, que posteriormente arquivou a denúncia após as providências adotadas.
Como medida administrativa, os profissionais envolvidos passaram a atuar em escalas e pavilhões distintos, de forma a evitar o contato direto entre eles e preservar o ambiente de trabalho.
Diante da nova denúncia apresentada pela servidora, a Sesacre informa que irá apurar novamente os fatos e avaliar as medidas administrativas cabíveis, conforme os procedimentos legais e institucionais.
*Com informações do G1/Ac