A fronteira entre Plácido de Castro e a Bolívia vem ganhando um novo significado nos últimos anos. Se antes a região era conhecida principalmente pelo comércio e pela circulação diária de moradores entre os dois países, a chegada do curso de Medicina da Universidade Amazônica de Pando (UAP) acrescentou um novo componente à realidade local: a educação superior.
A implantação do curso na Vila Evo Morales começou a sair do papel no fim de 2023, quando a Prefeitura de Plácido de Castro anunciou a instalação da graduação na localidade boliviana, com apoio do município. A formação foi anunciada com duração de seis anos e passou a atrair estudantes de Plácido de Castro e de outras cidades acreanas.
Em fevereiro de 2024, a assinatura do convênio entre o município boliviano de Bela Flor e a Universidade Amazônica de Pando marcou uma nova etapa do projeto. Na ocasião, informações divulgadas pela imprensa local apontavam cerca de 250 alunos matriculados, com previsão de início das aulas naquele semestre.
O impacto da instituição não fica limitado ao lado boliviano. A proximidade com Plácido de Castro fez com que a cidade brasileira passasse a integrar, de maneira cada vez mais intensa, a rotina acadêmica de estudantes que atravessam diariamente a fronteira.
Uma indicação apresentada na Assembleia Legislativa do Acre em 2024 citou a existência de aproximadamente 400 estudantes no início das atividades, com predominância de brasileiros, e apontou uma possível expansão para cerca de mil alunos. Esses números foram apresentados à época pela parlamentar autora da indicação e representam um registro daquele período, não necessariamente o quantitativo atual.
A presença dos acadêmicos também tem reflexos na movimentação econômica. Em entrevista recente, o prefeito de Plácido de Castro, Camilo da Silva, destacou justamente o potencial da universidade para ampliar a circulação de pessoas, fortalecer o comércio e criar novas oportunidades para o município, considerando a posição estratégica da cidade na fronteira.
Na prática, estudantes precisam de transporte, alimentação, hospedagem, serviços, documentação, comércio e outros atendimentos. Com isso, uma atividade educacional instalada do outro lado da fronteira acaba gerando efeitos também no cotidiano de Plácido de Castro.
A expansão do curso também fez com que a Vila Evo Morales ganhasse maior visibilidade como polo educacional de fronteira. Em 2024, universidades bolivianas chegaram a divulgar cursos de Medicina durante a Expoacre, reforçando o interesse de estudantes brasileiros pela formação médica no país vizinho.
Já em 2026, informações divulgadas sobre a UAP indicaram a continuidade das inscrições para Medicina em Puerto Evo, mostrando que a oferta do curso permanece integrada à dinâmica educacional da região.
Esse movimento coloca Plácido de Castro diante de uma oportunidade que vai além da sala de aula: transformar sua localização de fronteira em uma vantagem para educação, comércio, serviços e integração regional.
É nesse cenário que entra outra discussão importante para os estudantes acreanos que cursam Medicina fora do Brasil.
Em janeiro de 2026, foi sancionada a Lei Estadual nº 4.775, de autoria do deputado estadual Pablo Bregense, o Tio Pablo, então parlamentar e candidato à reeleição. A legislação permite que estudantes de Medicina formados no exterior realizem o internato nos hospitais da rede estadual de saúde. A norma foi originada no Projeto de Lei nº 49/2025.
O internato corresponde à etapa prática final da formação médica, realizada nos dois últimos anos da graduação e acompanhada por profissionais responsáveis pela supervisão dos estudantes. Segundo o Governo do Acre, a nova legislação passou a permitir que brasileiros que estudam Medicina no exterior possam realizar essa etapa na rede estadual, incluindo áreas como clínica médica, cirurgia, pediatria, medicina da família, ginecologia e obstetrícia.
Pablo Bregense estimou que a medida poderia alcançar mais de 30 mil estudantes brasileiros, principalmente acreanos que vivem ou estudam em países próximos ao Estado.
Para a região de Plácido de Castro, a discussão ganha um peso ainda maior. A existência de um curso de Medicina praticamente na porta do município criou uma realidade em que centenas de estudantes brasileiros passaram a buscar formação médica do outro lado da fronteira.
A Lei nº 4.775 não criou o curso da Vila Evo Morales e não significa que os estudantes estejam automaticamente autorizados a exercer Medicina no Brasil. O texto trata especificamente da possibilidade de realização do internato nos hospitais da rede estadual, etapa que precisa seguir as regras e regulamentações aplicáveis. A própria lei determinou regulamentação pelo Poder Executivo.
Também há debate jurídico sobre a legislação. Em fevereiro de 2026, veículos de comunicação publicaram manifestação de um advogado especialista em direito médico que questionou a constitucionalidade da norma. Trata-se, portanto, de uma questão que possui posicionamentos jurídicos distintos e que deve ser acompanhada conforme sua regulamentação e eventuais desdobramentos.
A universidade já provocou mudanças na dinâmica da fronteira, mas o crescimento da atividade acadêmica também traz desafios.
Mais estudantes significam maior necessidade de transporte, segurança, atendimento de saúde, infraestrutura, comércio organizado, serviços públicos e integração entre as autoridades brasileiras e bolivianas.
Para Plácido de Castro, a presença de uma instituição de ensino superior voltada à formação médica na fronteira pode representar uma oportunidade de longo prazo. O município pode se tornar ponto de apoio para estudantes, profissionais e famílias que circulam diariamente pela região.
Nesse contexto, a atuação de Pablo Bregense aparece ligada a uma das etapas dessa discussão: a criação de uma legislação estadual voltada ao internato de estudantes formados no exterior. Já a implantação do curso de Medicina na Vila Evo Morales antecede a lei e contou, desde o início, com articulação e apoio local, especialmente da Prefeitura de Plácido de Castro.
O que começou como um projeto educacional em uma pequena localidade boliviana passou a fazer parte da rotina de Plácido de Castro.
Hoje, 23 de setembro de 2026, a presença da Medicina na Vila Evo Morales representa mais do que a oferta de um curso para jovens que sonham em vestir o jaleco. É também um exemplo de como uma região de fronteira pode criar novas relações entre educação, saúde, comércio e desenvolvimento.
O próximo passo, porém, será transformar esse movimento em estrutura permanente, com segurança acadêmica, regulamentação, fiscalização, boas condições de ensino e integração responsável entre Brasil e Bolívia.
Para uma cidade como Plácido de Castro, acostumada a conviver diariamente com a fronteira, a universidade pode significar uma nova porta aberta — desta vez, para o conhecimento, para a formação profissional e para oportunidades que ultrapassam os limites de dois países.