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A Caminhada de Lurdes

A estrada cobrou tudo, menos o amor

Paulo Roberto de Araújo Pereira
Por: Paulo Roberto de Araújo Pereira
10/05/2025 às 23h07 Atualizada em 11/05/2025 às 18h41
A Caminhada de Lurdes

Na colônia esquecida nos arredores de Plácido de Castro, anos 70, o tempo não corria — rastejava. O barro era rei e a fome, visita constante. Água da chuva em lata, farinha racionada, às vezes um naco de charque passado — mais sal que carne — pra dividir entre quatro bocas. E mesmo assim, Dona Lurdes sorria para os filhos com olhos de quem escondia o próprio desespero.

Era mãe e era tudo. O marido havia morrido num corte de seringueira envenenado. Ficou só com três crianças, um machado, e fé. Fé torta, mas viva. Em noites de fome mais funda, contava histórias pra enganar o estômago. Em vez de rezar, cantava baixo pra ninguém ouvir o estalar da barriga vazia.

Numa madrugada abafada, o filho do meio, Joaquim, de apenas oito anos, começou a delirar. Febre alta, respiração fraca, pele ardendo como brasa. Malária. Ou se chegava à cidade, ou se cavava a cova.

Plácido de Castro ficava a 25 quilômetros, por trilhas de lama que engoliam botas e promessas. Sem comida. Sem descanso. Com a coragem fervendo por dentro. Dona Lurdes amarrou o filho numa rede velha, improvisou uma padiola com paus de aroeira e saiu com dois vizinhos.

A cada passo, a floresta sussurrava perigos. Um tamanduá-bandeira cruzou o caminho, se ergueu nas patas traseiras, como um guardião da mata, antes de sumir na escuridão. Era presságio. Mas não recuaram.

Dona Lurdes sangrava dos pés, com feridas abertas que ardiam a cada passo. Tinha sede, fome, dor. Mas carregava algo mais forte que tudo isso: a decisão de não enterrar mais um filho.

Em dado momento, ela parou. Os joelhos cederam no barro e ela encostou a testa na madeira da padiola. Rezou com a boca colada à dor:
“Se for pra levar, leva a mim. Mas deixa o menino. Deixa o menino.”
E levantou com os olhos marejados e o destino ainda nas mãos.

A caminhada levou doze horas. Quando chegaram à cidade, Lurdes não sentia o corpo. Mas o menino ainda respirava, fraco, como quem esperou o último segundo por ela.

O posto de saúde, improvisado e quase sem recursos, aplicou o remédio. Joaquim sobreviveu.

E o que veio depois, ninguém esqueceu.

A história correu entre praças, rádios e igrejas. Uma mulher, sem nada, atravessou a floresta e o impossível. Um gesto tão bruto e sagrado que comoveu até os homens mais duros do poder. O prefeito, tocado pela força daquela mãe, mandou abrir a estrada de vez. Depois vieram os sacos de arroz. Depois, a luz.

Mas a colônia mudou por causa dela — não por pena, mas por espanto. Foi a lama e o sangue de Lurdes que rasgaram a mata e deixaram um caminho para o futuro.

Até hoje, dizem que quando chove forte, e a estrada vira barro grosso, ainda se sente no ar o peso da rede, o cheiro de febre e o eco dos pés daquela mulher que andou com a morte ao lado… e não deixou que ela levasse mais ninguém.

Nota do Autor:

Esta é uma obra de ficção narrativa. Embora inspirada no imaginário, nos cenários e nas realidades vividas por muitos nas zonas rurais do Acre nos anos 1970, a história de Dona Lurdes é fruto da criação literária, entre memórias inventadas e imagens evocadas. Nenhum fato ou personagem retratado corresponde, necessariamente, a eventos ou pessoas reais.

Escrevo não apenas por gosto em ler e criar — mas por ser amante das histórias do nosso povo, da força anônima das mulheres e dos silêncios que moldaram o Brasil profundo. Sou formado em Letras (Língua Portuguesa), em Direito, e tenho pós-graduações que me atravessam de modos diversos. Esta narrativa foi desenvolvida também em colaboração com ferramentas de aprimoramento artificial, como exercício de memória emocional e força simbólica — onde a verdade mais profunda, às vezes, se revela justamente naquilo que nunca aconteceu.

 

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