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Relatório inédito da Abin aponta Brasil como eixo do contrabando de migrantes e detalha rotas em 14 estados

Estudo feito com a Organização Internacional para as Migrações mapeia redes criminosas, formas de recrutamento e uso do território brasileiro como destino, origem e corredor de passagem

30/04/2026 às 12h33
Por: Redação Fonte: O Globo
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Imigrantes passando pela fronteira do Acre – Foto: Alexandre Lima/arquivo
Imigrantes passando pela fronteira do Acre – Foto: Alexandre Lima/arquivo

Um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) publicado nesta terça-feira (28) aponta que o Brasil se consolidou como um ponto estratégico nas dinâmicas internacionais de contrabando de migrantes, com rotas estruturadas em ao menos 14 estados e atuação de redes criminosas que exploram a extensão das fronteiras, a posição geográfica e a política migratória do país. O diagnóstico, que integra o documento “Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência”, é o primeiro levantamento dessa natureza feito no país e traça um panorama sobre o funcionamento dessas estruturas.

Na prática, o país funciona simultaneamente como origem, trânsito e destino de fluxos migratórios irregulares. Estrangeiros entram em busca de trabalho, outros utilizam o território como corredor rumo a outros países, enquanto brasileiros recorrem a essas redes para tentar a vida no exterior, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa.

“O contrabando de migrantes envolve a facilitação da entrada irregular de indivíduos em um país, com o fim de obter benefícios financeiros ou materiais. Representa, assim, um crime contra o Estado e uma ameaça aos direitos dos migrantes. De modo geral, está também conectado com outras práticas ilícitas, que comprometem a segurança e a estabilidade de diferentes regiões do país. É um crime complexo e uma preocupação global”, detalha o documento.

Com mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres e fluviais, além de uma ampla malha aérea e uma legislação migratória considerada relativamente amigável, o Brasil se torna terreno estratégico para essas organizações. Esse conjunto facilita tanto a entrada quanto a circulação interna e a saída de migrantes, muitas vezes com baixa fiscalização em trechos remotos.

Segundo a Abin, as quadrilhas têm caráter transnacional e operam de forma descentralizada. Em geral, estrangeiros ocupam posições de comando, enquanto brasileiros atuam na execução — cuidando de transporte, hospedagem, compra de passagens e apoio logístico. A estrutura inclui ainda recrutadores, intermediários financeiros, falsificadores de documentos e os chamados “coiotes”, responsáveis pelas travessias.

O recrutamento costuma começar em redes de confiança, como amigos e parentes que já fizeram o trajeto. Com o tempo, porém, essa dinâmica se ampliou para o ambiente digital, aumentando o alcance das organizações e facilitando o contato direto com potenciais migrantes. 

“As organizações criminosas responsáveis pelo contrabando de migrantes possuem ampla gama de atividades, sendo comum que pratiquem também outros tipos de crimes. Essa estrutura permite flexibilidade e adaptabilidade, e ao mesmo tempo dificulta os esforços para combater o contrabando, já que a natureza descentralizada dessas operações gera obstáculos à identificação e ao desmantelamento de redes inteiras”, diz o texto.

Redes sociais e aliciamento

Aplicativos de mensagens e redes sociais tradicionais seguem sendo usados para coordenar operações, mas o relatório destaca o avanço de plataformas de vídeos curtos, como TikTok e Kwai, como principais vitrines dessas atividades.

Nesses espaços, o aliciamento ocorre de forma disfarçada: ofertas são apresentadas como serviços legais, como agências de viagem ou consultorias migratórias. Os chamados “pacotes” podem incluir transporte, hospedagem, orientação de rota e até documentação falsa, com preços que variam conforme o destino e a complexidade do trajeto.

A Abin ressalta que se trata de um mercado altamente lucrativo, frequentemente associado a outros crimes, como lavagem de dinheiro, corrupção e exploração de migrantes. Apesar de recorrerem voluntariamente a esses serviços, os viajantes enfrentam riscos como violência, condições precárias e ausência de assistência ao longo do percurso.

Rotas espalhadas pelo país

O levantamento identificou a presença dessas redes em pelo menos 14 estados, com diferentes funções dentro da cadeia: fronteiras no Norte e Centro-Oeste operam como portas de entrada e corredores; estados do Sudeste concentram a articulação logística e a saída de brasileiros; e o Sul aparece tanto como destino de mão de obra quanto como rota para países vizinhos.

As rotas combinam modais terrestres, fluviais e aéreos e passam por grandes hubs logísticos, como aeroportos internacionais. Em muitas regiões, a atuação ocorre de forma fragmentada, com participação de transportadores informais, donos de hospedagens e intermediários locais.

O relatório também chama atenção para a subnotificação. Muitos migrantes não se reconhecem como vítimas ou evitam denunciar por medo de deportação ou represálias, o que dificulta o combate às redes.

A expectativa é que o estudo sirva de base para políticas públicas e cooperação internacional, com foco na repressão às organizações criminosas e na proteção dos direitos dos migrantes.

 

 

 

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